PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 9 (2º exame) da UERJ 2015

2º exame · Linguagens · Português: Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos)

Texto-base das questões 08 a 11 · 2º Exame de Qualificação

É MENINA

É menina, que coisa mais fofa, parece com o pai, parece com a mãe, parece um joelho, upa, upa, não chora, isso é choro de fome, isso é choro de sono, isso é choro de chata, choro de menina, igualzinha à mãe, achou, sumiu, achou, não faz pirraça, coitada, tem que deixar chorar, vocês fazem tudo o que ela quer, isso vai crescer mimada, eu queria essa vida pra mim, dormir e mamar, aproveita enquanto ela ainda não engatinha, isso daí quando começa a andar é um inferno, daqui a pouco começa a falar, daí não para mais, ela precisa é de um irmão, foi só falar, olha só quem vai ganhar um irmãozinho, tomara que seja menino pra formar um casal, ela tá até mais quieta depois que ele nasceu, parece que ela cuida dele, esses dois vão ser inseparáveis, ela deve morrer de ciúmes, ele já nasceu falante, menino é outra coisa, desde que ele nasceu parece que ela cresceu, já tá uma menina, quando é que vai pra creche, ela não larga dessa boneca por nada, já podia ser mãe, já sabe escrever o nomezinho, quantos dedos têm aqui, qual é a sua princesa da Disney preferida, quem você prefere, o papai ou a mamãe, quem é o seu namoradinho, quem é o seu príncipe da Disney preferido, já se maquia nessa idade, é apaixonada pelo pai, cadê o Ken, daqui a pouco vira mocinha, eu te peguei no colo, só falta ficar mais alta que eu, finalmente largou a boneca, já tava na hora, agora deve tá pensando besteira, soube que virou mocinha, ganhou corpo, tenho uma dieta boa pra você, a dieta do ovo, a dieta do tipo sanguíneo, a dieta da água gelada, essa barriga só resolve com cinta, que corpão, essa menina é um perigo, vai ter que voltar antes de meia-noite, o seu irmão é diferente, menino é outra coisa, vai pela sombra, não sorri pro porteiro, não sorri pro pedreiro, quem é esse menino, se o seu pai descobrir, ele te mata, esse menino é filho de quem, cuidado que homem não presta, não pode dar confiança, não vai pra casa dele, homem gosta é de mulher difícil, tem que se dar valor, homem é tudo igual, segura esse homem, não fuxica, não mexe nas coisas dele, tem coisa que é melhor a gente não saber, não pergunta demais que ele te abandona, o que os olhos não veem o coração não sente, quando é que vão casar, ele tá te enrolando, morar junto é casar, quando é que vão ter filho, ele tá te enrolando, barriga pontuda deve ser menina, é menina.

Gregorio Duvivier
Folha de São Paulo, 16/09/2013.

O uso da expressão “é menina”, tanto para começar quanto para finalizar o texto, adquire também um valor simbólico, pelo significado que assume no contexto.

No contexto, esse recurso provoca um entendimento de:

  1. A
    alteração previsível de juízos morais
  2. B
    reprodução indefinida de preconceitos sociais
  3. C
    rejeição possível de comportamentos familiares
  4. D
    esperança vaga de novas atitudes das mulheres
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Resolução comentada

O texto abre com "É menina" no nascimento da protagonista e acaba com "é menina" quando ela, já adulta, está grávida ("barriga pontuda deve ser menina"). Ou seja, o texto é circular: termina onde começou.

Entre as duas pontas, aparece uma sequência de frases prontas ditas à menina em cada fase da vida: choro de menina, boneca, princesa da Disney, dieta, corpo, "vai pela sombra", "homem não presta", "segura esse homem", casamento, filhos. São cobranças e estereótipos de gênero que se repetem.

O valor simbólico da repetição é este: a nova menina que vai nascer receberá os mesmos discursos, e o ciclo recomeça. Ninguém questiona esses preconceitos; eles passam de geração em geração.

Por isso:

  1. (A) não serve, porque os juízos não mudam, são sempre os mesmos.
  2. (B) serve: a circularidade indica reprodução sem fim de preconceitos sociais.
  3. (C) não serve, porque os comportamentos familiares são aceitos e repetidos, não rejeitados.
  4. (D) não serve, porque o texto não sugere esperança de mudança, e sim continuidade.

Alternativa B.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO texto mostra juízos morais que se mantêm iguais, não que mudam.
  • CNão há rejeição: os comportamentos familiares são reproduzidos.
  • DA estrutura circular sugere repetição, não esperança de novas atitudes.

Assunto: Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos).

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Ver como caiu na prova Questão 9 no caderno 2º Exame de Qualificação da UERJ 2015

Fonte: UERJ 2015 · 2º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗