PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 6 (1º exame) da UERJ 2015

1º exame · Linguagens · Português: Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos)

Texto-base das questões 03 a 08 · 1º Exame de Qualificação

O ARRASTÃO

Estarrecedor, nefando, inominável, infame. Gasto logo os adjetivos porque eles fracassam em dizer o sentimento que os fatos impõem. Uma trabalhadora brasileira, descendente de escravos, como tantos, que cuida de quatro filhos e quatro sobrinhos, que parte para o trabalho às quatro e meia das manhãs de todas as semanas, que administra com o marido um ganho de mil e seiscentos reais, que paga pontualmente seus carnês, como milhões de trabalhadores brasileiros, é baleada em circunstâncias não esclarecidas no Morro da Congonha e, levada como carga no porta-malas de um carro policial a pretexto de ser atendida, é arrastada à morte, a céu aberto, pelo asfalto do Rio.

Não vou me deter nas versões apresentadas pelos advogados dos policiais. Todas as vozes terão que ser ouvidas, e com muita atenção à voz daqueles que nunca são ouvidos. Mas, antes das versões, o fato é que esse porta-malas, ao se abrir fora do script, escancarou um real que está acostumado a existir na sombra.

O marido de Cláudia Silva Ferreira disse que, se o porta-malas não se abrisse como abriu (por obra do acaso, dos deuses, do diabo), esse seria apenas “mais um caso”. Ele está dizendo: seria uma morte anônima, aplainada1 pela surdez da praxe2, pela invisibilidade, uma morte não questionada, como tantas outras.

É uma imagem verdadeiramente surreal, não porque esteja fora da realidade, mas porque destampa, por um “acaso objetivo” (a expressão era usada pelos surrealistas3), uma cena recalcada4 da consciência nacional, com tudo o que tem de violência naturalizada e corriqueira, tratamento degradante dado aos pobres, estupidez elevada ao cúmulo, ignorância bruta transformada em trapalhada transcendental5, além de um índice grotesco de métodos de camuflagem e desaparição de pessoas. Pois assim como Amarildo6 é aquele que desapareceu das vistas, e não faz muito tempo, Cláudia é aquela que subitamente salta à vista, e ambos soam, queira-se ou não, como o verso e o reverso do mesmo.

O acaso da queda de Cláudia dá a ver algo do que não pudemos ver no caso do desaparecimento de Amarildo. A sua passagem meteórica pela tela é um desfile do carnaval de horror que escondemos. Aquele carro é o carro alegórico de um Brasil, de um certo Brasil que temos que lutar para que não se transforme no carro alegórico do Brasil.

José Miguel Wisnik
Adaptado de oglobo.globo.com, 22/03/2014.

1 aplainada – nivelada
2 praxe – prática, hábito
3 surrealistas – participantes de movimento artístico do século 20 que enfatiza o papel do inconsciente
4 recalcada – fortemente reprimida
5 transcendental – que supera todos os limites
6 Amarildo – pedreiro desaparecido na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, em 2013, depois de ser detido por policiais

É uma imagem verdadeiramente surreal, (\ell. 17)

Na argumentação desenvolvida pelo autor, a imagem do porta-malas do carro da polícia expressa sentidos ambivalentes em relação à violência.

Esses sentidos podem ser definidos como:

  1. A
    achar – perder
  2. B
    socorrer – redimir
  3. C
    esconder – revelar
  4. D
    orientar – desorientar
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Resolução comentada

O texto diz que o porta-malas, "ao se abrir fora do script, escancarou um real que está acostumado a existir na sombra". A imagem tem, portanto, dois sentidos opostos ligados à violência.

  1. Esconder: em condições normais, o porta-malas fechado é o lugar onde a violência policial fica oculta. O marido de Cláudia diz que, se ele não tivesse se aberto, seria "apenas mais um caso", uma "morte anônima", "pela invisibilidade". O autor também fala em "métodos de camuflagem e desaparição de pessoas", como no caso de Amarildo.

  2. Revelar: ao se abrir por acaso, o porta-malas "destampa" uma cena "recalcada da consciência nacional" e "escancara" o que estava na sombra. Cláudia "salta à vista", ao contrário de Amarildo, que "desapareceu das vistas".

O porta-malas, então, é ao mesmo tempo o que esconde a violência e, quando se abre, o que a revela. Esse é o par de sentidos ambivalentes pedido.

As demais opções trazem pares que o texto não desenvolve em relação à violência. Não há ideia de socorro ou redenção (a vítima foi levada "a pretexto de ser atendida"), de achar e perder, nem de orientar e desorientar.

Alternativa C.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AAchar e perder não aparecem como sentidos do porta-malas; o texto trata de ocultar e mostrar, não de encontrar objetos.
  • BSocorrer e redimir contrariam o texto, pois o socorro era apenas um pretexto e não há redenção.
  • DOrientar e desorientar não correspondem à oposição entre ocultar e expor a violência.

Assunto: Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos).

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Ver como caiu na prova Questão 6 no caderno 1º Exame de Qualificação da UERJ 2015

Fonte: UERJ 2015 · 1º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗