PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 4 (1º exame) da UERJ 2015
Texto-base das questões 03 a 08 · 1º Exame de Qualificação
O ARRASTÃO
Estarrecedor, nefando, inominável, infame. Gasto logo os adjetivos porque eles fracassam em dizer o sentimento que os fatos impõem. Uma trabalhadora brasileira, descendente de escravos, como tantos, que cuida de quatro filhos e quatro sobrinhos, que parte para o trabalho às quatro e meia das manhãs de todas as semanas, que administra com o marido um ganho de mil e seiscentos reais, que paga pontualmente seus carnês, como milhões de trabalhadores brasileiros, é baleada em circunstâncias não esclarecidas no Morro da Congonha e, levada como carga no porta-malas de um carro policial a pretexto de ser atendida, é arrastada à morte, a céu aberto, pelo asfalto do Rio.
Não vou me deter nas versões apresentadas pelos advogados dos policiais. Todas as vozes terão que ser ouvidas, e com muita atenção à voz daqueles que nunca são ouvidos. Mas, antes das versões, o fato é que esse porta-malas, ao se abrir fora do script, escancarou um real que está acostumado a existir na sombra.
O marido de Cláudia Silva Ferreira disse que, se o porta-malas não se abrisse como abriu (por obra do acaso, dos deuses, do diabo), esse seria apenas “mais um caso”. Ele está dizendo: seria uma morte anônima, aplainada1 pela surdez da praxe2, pela invisibilidade, uma morte não questionada, como tantas outras.
É uma imagem verdadeiramente surreal, não porque esteja fora da realidade, mas porque destampa, por um “acaso objetivo” (a expressão era usada pelos surrealistas3), uma cena recalcada4 da consciência nacional, com tudo o que tem de violência naturalizada e corriqueira, tratamento degradante dado aos pobres, estupidez elevada ao cúmulo, ignorância bruta transformada em trapalhada transcendental5, além de um índice grotesco de métodos de camuflagem e desaparição de pessoas. Pois assim como Amarildo6 é aquele que desapareceu das vistas, e não faz muito tempo, Cláudia é aquela que subitamente salta à vista, e ambos soam, queira-se ou não, como o verso e o reverso do mesmo.
O acaso da queda de Cláudia dá a ver algo do que não pudemos ver no caso do desaparecimento de Amarildo. A sua passagem meteórica pela tela é um desfile do carnaval de horror que escondemos. Aquele carro é o carro alegórico de um Brasil, de um certo Brasil que temos que lutar para que não se transforme no carro alegórico do Brasil.
José Miguel Wisnik
Adaptado de oglobo.globo.com, 22/03/2014.
1 aplainada – nivelada
2 praxe – prática, hábito
3 surrealistas – participantes de movimento artístico do século 20 que enfatiza o papel do inconsciente
4 recalcada – fortemente reprimida
5 transcendental – que supera todos os limites
6 Amarildo – pedreiro desaparecido na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, em 2013, depois de ser detido por policiais
Todas as vozes terão que ser ouvidas, e com muita atenção à voz daqueles que nunca são ouvidos. (\ell. 9-10)
Esta frase contém um ponto de vista que se baseia na pressuposição da existência de:
- Atestemunhas omissas do caso
- Bfalhas importantes nos processos
- Csegmentos excluídos da população
- Dimparcialidades frequentes nos julgamentos
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Resolução comentada
Pressuposição é a informação que a frase dá como já aceita, sem afirmá-la de forma direta. Para achá-la, pergunte o que precisa ser verdade para a frase fazer sentido.
- A frase pede atenção especial "à voz daqueles que nunca são ouvidos".
- Para existir gente que nunca é ouvida, é preciso que haja um grupo sistematicamente silenciado, sem espaço no debate público.
- No contexto, o texto fala de uma trabalhadora pobre, descendente de escravos, e de uma realidade "que está acostumada a existir na sombra". Esses são os que não têm voz: os pobres, os invisibilizados.
- Portanto, o autor pressupõe que existem segmentos excluídos da população, cujas vozes são ignoradas.
Conferindo as demais: a frase não fala de testemunhas que se omitiram, e sim de pessoas que não são escutadas. Também não trata de falhas processuais nem de julgamentos, pois o assunto é quem tem direito de ser ouvido. Quanto a "imparcialidades frequentes", a ideia nem combina com o sentido da frase.
Alternativa C.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AOs que nunca são ouvidos não são testemunhas que se omitem; são pessoas silenciadas pela exclusão social.
- BA frase não trata de falhas nos processos, e sim de quem tem voz no debate.
- DNão há referência a julgamentos, e "imparcialidades frequentes" contradiz o tom de denúncia do texto.
Assunto: Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos).
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Fonte: UERJ 2015 · 1º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗