PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 10 (1º exame) da UERJ 2015
Texto-base das questões 09 a 12 · 1º Exame de Qualificação
MEDO E VERGONHA
O medo é um evento poderoso que toma o nosso corpo, nos põe em xeque, paralisa alguns e atiça a criatividade de outros. Uma pessoa em estado de pavor é dona de uma energia extra capaz de feitos incríveis.
Um amigo nosso, quando era adolescente, aproveitou a viagem dos pais da namorada para ficar na casa dela. Os pais voltaram mais cedo e, pego em flagrante, nosso Romeu teve a brilhante ideia de pular, pelado, do segundo andar. Está vivo. Tem hoje essa incrível história pra contar, mas deve se lembrar muito bem da vergonha.
Me lembrei dessa história por conta de outra completamente diferente, mas na qual também vi meu medo me deixar em maus lençóis.
Estava caminhando pelo bairro quando resolvi explorar umas ruas mais desertas. De repente, vejo um menino encostado num muro. Parecia um menino de rua, tinha seus 15, 16 anos e, quando me viu, fixou o olhar e apertou o passo na minha direção. Não pestanejei. Saí correndo. Correndo mesmo, na mais alta performance de minhas pernas.
No meio da corrida, comecei a pensar se ele iria mesmo me assaltar. Uma onda de vergonha foi me invadindo. O rapaz estava me vendo correr. E se eu tivesse me enganado? E se ele não fosse fazer nada? Mesmo que fosse. Ter sido flagrada no meu medo e preconceito daquela forma já me deixava numa desvantagem fulminante.
Não sou uma pessoa medrosa por excelência, mas, naquele dia, o olhar, o gesto, alguma coisa no rapaz acionou imediatamente o motor de minhas pernas e, quando me dei conta, já estava em disparada.
Fui chegando ofegante a uma esquina, os motoristas de um ponto de táxi me perguntaram o que tinha acontecido e eu, um tanto constrangida, disse que tinha ficado com medo. Me contaram que ele vivia por ali, tomando conta dos carros. Fervi de vergonha.
O menino passou do outro lado da rua e, percebendo que eu olhava, imitou minha corridinha, fazendo um gesto de desprezo. Tive vontade de sentar na guia1 e chorar. Ele só tinha me olhado, e o resto tinha sido produto legítimo do meu preconceito.
Fui atrás dele. Não consegui carregar tamanha bigorna2 pra casa. “Ei!” Ele demorou a virar. Se eu pensava que ele assaltava, ele também não podia imaginar que eu pedisse desculpas. Insisti: “Desculpa!” Ele virou. Seu olhar agora não era mais de ladrão, e sim de professor. Me perdoou com um sinal de positivo ainda cheio de desprezo. Fui pra casa pelada, igual ao Romeu suicida.
Denise Fraga
folha.uol.com.br, 08/01/2013
1 guia – meio-fio da calçada
2 bigorna – bloco de ferro para confecção de instrumentos
A crônica é um gênero textual que frequentemente usa uma linguagem mais informal e próxima da oralidade, pouco preocupada com a rigidez da chamada norma culta.
Um exemplo claro dessa linguagem informal, presente no texto, está em:
- AO medo é um evento poderoso que toma o nosso corpo, (\text{l.} 1)
- BMe lembrei dessa história por conta de outra completamente diferente, (\text{l.} 8)
- CDe repente, vejo um menino encostado num muro. (\text{l.} 10-11)
- Dele também não podia imaginar que eu pedisse desculpas. (\text{l.} 28)
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Resolução comentada
A questão pede o trecho em que aparece um traço típico da fala cotidiana, que foge da rigidez da norma culta. Vamos olhar cada trecho.
Na norma-padrão, a gramática tradicional recomenda não iniciar frase com pronome oblíquo átono (me, te, se, lhe). A regra é a próclise ou a ênclise conforme o contexto, e a ênclise é preferida quando o verbo abre a oração. Na fala, porém, o brasileiro usa naturalmente o pronome antes do verbo no início da frase.
Analisando:
- Trecho A: "O medo é um evento poderoso que toma o nosso corpo" segue a norma culta, com sujeito, verbo e complemento bem organizados.
- Trecho B: "Me lembrei dessa história" começa a frase com o pronome oblíquo "me", algo que a norma culta condena. É a construção típica da oralidade.
- Trecho C: "De repente, vejo um menino encostado num muro" tem expressão adverbial comum e sintaxe correta.
- Trecho D: "ele também não podia imaginar que eu pedisse desculpas" usa o subjuntivo "pedisse" depois de "imaginar", conforme o padrão culto.
Portanto, apenas o trecho B mostra a informalidade pedida no enunciado.
Alternativa B.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AA frase está totalmente de acordo com a norma culta, sem marca de oralidade.
- C"De repente" é expressão corrente, mas a sintaxe e a concordância são corretas.
- DO emprego do subjuntivo "pedisse" após "imaginar" segue a norma-padrão.
Assuntos: Norma-padrão, registros e adequação linguística, Colocação pronominal.
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Fonte: UERJ 2015 · 1º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗