PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 5 (1º exame) da UERJ 2014
Texto-base das questões 01 a 05 · 1º Exame de Qualificação
Fotojornalismo
Vem perto o dia em que soará para os escritores a hora do irreparável desastre e da derradeira desgraça. Nós, os rabiscadores de artigos e notícias, já sentimos que nos falta o solo debaixo dos pés... Um exército rival vem solapando os alicerces em que até agora assentava a nossa supremacia: é o exército dos desenhistas, dos caricaturistas e dos ilustradores. O lápis destronará a pena: ceci tuera cela¹.
O público tem pressa. A vida de hoje, vertiginosa e febril, não admite leituras demoradas, nem reflexões profundas. A onda humana galopa, numa espumarada bravia, sem descanso. Quem não se apressar com ela será arrebatado, esmagado, exterminado. O século não tem tempo a perder. A eletricidade já suprimiu as distâncias: daqui a pouco, quando um europeu espirrar, ouvirá incontinenti² o “Deus te ajude” de um americano. E ainda a ciência humana há de achar o meio de simplificar e apressar a vida por forma tal que os homens já nascerão com dezoito anos, aptos e armados para todas as batalhas da existência.
Já ninguém mais lê artigos. Todos os jornais abrem espaço às ilustrações copiosas, que entram pelos olhos da gente com uma insistência assombrosa. As legendas são curtas e incisivas: toda a explicação vem da gravura, que conta conflitos e mortes, casos alegres e casos tristes.
É provável que o jornal-modelo do século 20 seja um imenso animatógrafo³, por cuja tela vasta passem reproduzidos, instantaneamente, todos os incidentes da vida cotidiana. Direis que as ilustrações, sem palavras que as expliquem, não poderão doutrinar as massas nem fazer uma propaganda eficaz desta ou daquela ideia política. Puro engano. Haverá ilustradores para a sátira, ilustradores para a piedade.
(...) Demais, nada impede que seja anexado ao animatógrafo um gramofone de voz tonitruosa⁴, encarregado de berrar ao céu e à terra o comentário, grave ou picante, das fotografias.
E convenhamos que, no dia em que nós, cronistas e noticiaristas, houvermos desaparecido da cena – nem por isso se subverterá a ordem social. As palavras são traidoras, e a fotografia é fiel. A pena nem sempre é ajudada pela inteligência; ao passo que a máquina fotográfica funciona sempre sob a égide⁵ da soberana Verdade, a coberto das inumeráveis ciladas da Mentira, do Equívoco e da Miopia intelectual. Vereis que não hão de ser tão frequentes as controvérsias... (...)
Não insistamos sobre os benefícios da grande revolução que a fotogravura vem fazer no jornalismo. Frisemos apenas este ponto: o jornal-animatógrafo terá a utilidade de evitar que nossas opiniões fiquem, como atualmente ficam, fixadas e conservadas eternamente, para gáudio⁶ dos inimigos... Qual de vós, irmãos, não escreve todos os dias quatro ou cinco tolices que desejariam ver apagadas ou extintas? Mas, ai! de todos nós! Não há morte para as nossas tolices! Nas bibliotecas e nos escritórios dos jornais, elas ficam (...) catalogadas. (...)
No jornalismo do Rio de Janeiro, já se iniciou a revolução, que vai ser a nossa morte e a opulência⁷ dos que sabem desenhar. Preparemo-nos para morrer, irmãos, sem lamentações ridículas, aceitando resignadamente a fatalidade das coisas, e consolando-nos uns aos outros com a cortesia de que, ao menos, não mais seremos obrigados a escrever barbaridades... Saudemos a nova era da imprensa! A revolução tira-nos o pão da boca, mas deixa-nos aliviada a consciência.
Olavo Bilac
Gazeta de Notícias, 13/01/1901.
¹ ceci tuera cela – isto vai matar aquilo
² incontinenti – sem demora
³ animatógrafo – aparelho que passa imagens sequenciais
⁴ tonitruosa – com o volume alto
⁵ égide – proteção
⁶ gáudio – alegria extremada
⁷ opulência – riqueza, grandeza
Vereis que não hão de ser tão frequentes as controvérsias... (\ell. 27)
A previsão de Bilac sobre a diminuição das controvérsias ou polêmicas, por causa da vitória da imagem sobre a palavra, baseia-se em uma pressuposição acerca da maneira de representar a realidade.
Essa pressuposição está enunciada em:
- Ao desenho critica o real e as palavras expressam consciência
- Ba fotografia reproduz o real e as palavras provocam distorções
- Ca imagem interpreta o real e as palavras precisam de inteligência
- Da fotogravura subverte o real e as palavras tendem ao conservadorismo
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Resolução comentada
A frase em questão vem logo depois de um trecho em que Bilac contrapõe palavra e fotografia: "As palavras são traidoras, e a fotografia é fiel". Em seguida, ele explica por quê: a pena nem sempre é ajudada pela inteligência, enquanto a máquina fotográfica funciona "sob a égide da soberana Verdade", protegida das ciladas da Mentira, do Equívoco e da Miopia intelectual.
A pressuposição é, portanto, esta:
- A fotografia registra a realidade tal como ela é, sem interferência de quem a faz (é "fiel").
- A palavra, por depender do autor, pode trair, errar ou mentir (é "traidora"), ou seja, distorce a realidade.
- Se a imagem é fiel e a palavra distorce, trocar a segunda pela primeira reduz os desacordos sobre os fatos. Daí a previsão de que as controvérsias serão menos frequentes.
A alternativa que reúne essas duas ideias é a que diz que a fotografia reproduz o real e as palavras provocam distorções.
As demais atribuem à imagem papéis como criticar, interpretar ou subverter o real, o que contraria a ideia de fidelidade defendida no texto.
Alternativa B.
Por que as outras alternativas estão erradas
- ABilac não diz que o desenho critica o real nem que as palavras expressam consciência; ele afirma que a fotografia é fiel e as palavras traem.
- CDiz que a imagem interpreta o real, mas para Bilac a fotografia apenas reproduz; interpretar seria justamente fonte de controvérsia.
- DAtribui à fotogravura o poder de subverter o real, contrário à fidelidade defendida, e o conservadorismo das palavras não é o argumento do trecho.
Assunto: Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos).
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Fonte: UERJ 2014 · 1º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗