PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 10 (2º exame) da UERJ 2014
Texto-base das questões 07 a 10 · 2º Exame de Qualificação
Os usos da casimira inglesa
Estou lhe escrevendo, Matilda, para lhe transmitir aquilo que a contrariedade (para não falar indignação) me impediu de dizer de viva voz. Note, é a primeira vez que isso acontece nos nossos 35 anos de casados, mas é primeira vez que pode também ser a última. Não é ameaça. É constatação. Estou profundamente magoado com sua atitude e não sei se me recuperarei.
Tudo por causa de sua teimosia. Você insiste, contra todas as minhas ponderações, em dar a seu pai um corte de casimira inglesa como presente de aniversário. Eu já sei o que você vai me dizer: é seu pai, você gosta dele, quer homenageá-lo. Mas, com casimira, Matilda. Com casimira inglesa, Matilda. Que horror, Matilda.
Raciocinemos, Matilda. Casimira inglesa, você sabe o que é isso? A lã dos melhores ovinos, Matilda. A tecnologia de um país que, afinal, deu ao mundo a Revolução Industrial. O trabalho de competentes funcionários. E sobretudo tradição, a qualidade. Esse é o tecido que está em questão, Matilda. A casimira inglesa. (...)
Isso, a casimira inglesa. Agora, seu pai.
Ele está fazendo noventa anos. É uma idade respeitável, e não são muitos que chegam lá, mas – quanto tempo ele pode ainda viver? (...) mesmo que ele viva dez anos, mesmo que ele viva vinte anos, a casimira sem dúvida durará mais. Aí, depois que o sepultarmos, depois que voltarmos do cemitério, depois que recebermos os pêsames dos parentes, e dos amigos, e dos conhecidos, teremos de decidir o que fazer com as coisas dele, que são poucas e sem valor – à exceção de um casaco confeccionado com o corte de casimira que você pretende lhe dar. Você, em lágrimas, dirá que não quer discutir o assunto, mas eu terei que insistir, até para o seu bem, Matilda; os mortos estão mortos, os vivos precisam continuar a viver, eu direi. Algumas hipóteses serão levantadas. Vender? Você dirá que não; seu pai, o velho fazendeiro, verdade que arruinado, despreza coisas como comprar e vender, ele acha que ser lojista, como eu, é a suprema degradação. Dar? A quem? A um pobre? Mas não, ele sempre detestou pobres, Matilda, você lembra a frase característica de seu pai: tem que matar esses vagabundos. O casaco ficaria pendurado em nosso roupeiro, Matilda. Ficaria pendurado muito tempo lá. A não ser, Matilda, que seu pai dure mais tempo que o casaco. Não apenas isso é impossível, como remete a uma outra interrogação: e o seguro de vida dele, Matilda? E as joias de sua mãe, que ele guarda debaixo do colchão? Quanto tempo ainda terei de esperar?
Estou partindo Matilda. Deixo o meu endereço. Como você vê, estou indo para longe, para uma pequena praia da Bahia. Trópico, Matilda. Lá ninguém usa casimira.
Moacyr Scliar
Contos reunidos. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.
Ele está fazendo noventa anos. É uma idade respeitável, e não são muitos que chegam lá, mas – quanto tempo ele pode ainda viver? (\ell. 14-15)
No contexto, a pergunta feita pelo narrador está diretamente ligada à informação acerca da idade do pai de Matilda.
No entanto, entre a informação e a pergunta, o narrador enuncia duas ponderações que possuem a função de:
- Adesfazer a certeza de que a fala é impensada
- Bamenizar o choque que a indagação pode trazer
- Creiterar a ideia de que o presente é equivocado
- Denfatizar o realismo que o remetente quer mostrar
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Resolução comentada
O narrador quer convencer Matilda de que a casimira inglesa é um presente inadequado para o pai dela, que está prestes a fazer noventa anos. Para isso, precisa chegar à pergunta incômoda: "quanto tempo ele pode ainda viver?". Ela é cruel, pois pressupõe a morte próxima do sogro.
O que vem antes da pergunta? Duas ponderações:
- "É uma idade respeitável", que elogia a longevidade do velho.
- "Não são muitos que chegam lá", que reconhece o mérito de ter chegado aos noventa.
As duas frases têm tom conciliador e positivo. O "mas" que introduz a pergunta marca a mudança: primeiro o narrador suaviza e mostra respeito, depois lança a questão dura. Ou seja, as ponderações preparam Matilda e abrandam o impacto de falar da morte do pai.
Conferindo as demais:
- A: a fala do narrador é calculada, mas as ponderações não servem para provar isso.
- C: reiterar que o presente é equivocado é o objetivo da carta toda, não dessas duas frases em especial.
- D: elogiar a idade não enfatiza realismo; ele só aparece na pergunta.
Portanto, as ponderações funcionam como atenuação do choque da pergunta.
Alternativa B.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AAs ponderações não tratam de a fala ser impensada ou não; elas apenas suavizam o tom antes da pergunta.
- CReiterar que o presente é um erro é a tese geral da carta, mas não é a função dessas duas frases sobre a idade do pai.
- DO realismo cru está na pergunta, não nas ponderações, que são elogiosas e cumprem o papel oposto ao de enfatizar.
Assunto: Modalização e marcas de subjetividade.
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Fonte: UERJ 2014 · 2º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗