PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 4 (1º exame) da UERJ 2013

1º exame · Linguagens · Literatura: Lima Barreto

com base no texto abaixo, responda às questões de números 03 a 08. · 1º Exame de Qualificação

Recordações do escrivão Isaías Caminha

Eu não sou literato, detesto com toda a paixão essa espécie de animal. O que observei neles, no tempo em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para não os amar, nem os imitar. São em geral de uma lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de receitas, só capazes de colher fatos detalhados e impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às ideias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e um pueril e errôneo critério de beleza. Se me esforço por fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois quero falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito geral e no seu interesse, com a linguagem acessível a ele. É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego que para isso tenha procurado modelos e normas. Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance das mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que os leio, que os estudo, que procuro descobrir nos grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a ambição literária que me move ao procurar esse dom misterioso para animar e fazer viver estas pálidas Recordações. Com elas, queria modificar a opinião dos meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, a não se encherem de hostilidade e má vontade quando encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos dignos de indiferença.

Entretanto, quantas dores, quantas angústias! Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um médico mezinheiro, repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu amanhã lhes fosse falar neste livro – que espanto! que sarcasmo! que crítica desanimadora não fariam. Depois que se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples e esquecido de sua carta apergaminhada, nada digo das minhas leituras, não falo das minhas lucubrações intelectuais a ninguém, e minha mulher, quando me demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto: – Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para amanhã!

De forma que não tenho por onde aferir se as minhas Recordações preenchem o fim a que as destino; se a minha inabilidade literária está prejudicando completamente o seu pensamento. Que tortura! E não é só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em que me acho, em que me dispo em frente de desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela, unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso absolutamente. De manhã, ao almoço, na coletoria, na botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite, quando todos em casa se vão recolhendo, insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo furiosamente. Estou no sexto capítulo e ainda não me preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom recebimento dos detentores da opinião nacional. Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa também, amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais hábil que a refaça e que diga o que não pude nem soube dizer.

(...) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri e pensei não o sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a página, achei-a incolor, comum, e, sobretudo, pouco expressiva do que eu de fato tinha sentido.

LIMA BARRETO
Recordações do escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010.

O personagem Isaías Caminha faz críticas àqueles que ele denomina “literatos”.

No primeiro parágrafo, podemos entender que os chamados literatos são escritores com a característica de:

  1. A
    carecer de bons leitores
  2. B
    negar o talento individual
  3. C
    repetir regras consagradas
  4. D
    apresentar erros de escrita
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Resolução comentada

A questão pede o que o primeiro parágrafo diz sobre os "literatos", e a resposta está na lista de defeitos que Isaías Caminha atribui a eles.

No trecho, ele afirma que os literatos são "cheios de fórmulas, de receitas", "curvados aos fortes e às ideias vencedoras, e antigas", "adstritos a um infantil fetichismo do estilo" e "guiados por conceitos obsoletos". Cada expressão aponta para o mesmo traço: escrever seguindo modelos prontos, convenções e padrões já estabelecidos, sem originalidade nem capacidade de "generalizar".

Isso corresponde a repetir regras consagradas: "fórmulas" e "receitas" são as regras; "ideias vencedoras e antigas" e "conceitos obsoletos" mostram que são regras já consagradas, repetidas sem questionamento.

Confira as outras opções:

  1. O texto não fala de falta de leitores dos literatos; o narrador quer ser lido, mas isso é outro assunto.
  2. Não há crítica à negação do talento individual; a crítica é à falta de ideias próprias.
  3. Ele critica a limitação de ideias e o apego ao estilo, não erros de escrita.

Alternativa C.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO trecho não diz que os literatos carecem de leitores; o desejo de ser lido é do próprio narrador.
  • BNão há menção a negar talento individual; a crítica é à limitação de ideias e ao uso de fórmulas.
  • DEle critica o fetichismo do estilo e os conceitos obsoletos, não erros de escrita.

Assuntos: Lima Barreto, Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos).

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Ver como caiu na prova Questão 4 no caderno 1º Exame de Qualificação da UERJ 2013

Fonte: UERJ 2013 · 1º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗