PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 10 (2º exame) da UERJ 2013

2º exame · Linguagens · Português: Formação de palavras e neologismos

com base no texto abaixo, responda às questões de números 04 a 10. · 2º Exame de Qualificação

Nós, escravocratas

Há exatos cem anos, saía da vida para a história um dos maiores brasileiros de todos os tempos: o pernambucano Joaquim Nabuco. Político que ousou pensar, intelectual que não se omitiu em agir, pensador e ativista com causa, principal artífice da abolição do regime escravocrata no Brasil.

Apesar da vitória conquistada, Joaquim Nabuco reconhecia: “Acabar com a escravidão não basta. É preciso acabar com a obra da escravidão”, como lembrou na semana passada Marcos Vinicios Vilaça, em solenidade na Academia Brasileira de Letras. Mas a obra da escravidão continua viva, sob a forma da exclusão social: pobres, especialmente negros, sem terra, sem emprego, sem casa, sem água, sem esgoto, muitos ainda sem comida; sobretudo sem acesso à educação de qualidade.

Cem anos depois da morte de Joaquim Nabuco, a obra da escravidão se mantém e continuamos escravocratas.

Somos escravocratas ao deixarmos que a escola seja tão diferenciada, conforme a renda da família de uma criança, quanto eram diferenciadas as vidas na Casa Grande ou na Senzala. Somos escravocratas porque, até hoje, não fizemos a distribuição do conhecimento: instrumento decisivo para a liberdade nos dias atuais. Somos escravocratas porque todos nós, que estudamos, escrevemos, lemos e obtemos empregos graças aos diplomas, beneficiamo-nos da exclusão dos que não estudaram. Como antes, os brasileiros livres se beneficiavam do trabalho dos escravos.

Somos escravocratas ao jogarmos, sobre os analfabetos, a culpa por não saberem ler, em vez de assumirmos nossa própria culpa pelas decisões tomadas ao longo de décadas. Privilegiamos investimentos econômicos no lugar de escolas e professores. Somos escravocratas, porque construímos universidades para nossos filhos, mas negamos a mesma chance aos jovens que foram deserdados do Ensino Médio completo com qualidade. Somos escravocratas de um novo tipo: a negação da educação é parte da obra deixada pelos séculos de escravidão.

A exclusão da educação substituiu o sequestro na África, o transporte até o Brasil, a prisão e o trabalho forçado. Somos escravocratas que não pagamos para ter escravos: nossa escravidão ficou mais barata, e o dinheiro para comprar os escravos pode ser usado em benefício dos novos escravocratas. Como na escravidão, o trabalho braçal fica reservado para os novos escravos: os sem educação.

Negamo-nos a eliminar a obra da escravidão.

Somos escravocratas porque ainda achamos naturais as novas formas de escravidão; e nossos intelectuais e economistas comemoram minúscula distribuição de renda, como antes os senhores se vangloriavam da melhoria na alimentação de seus escravos, nos anos de alta no preço do açúcar. Continuamos escravocratas, comemorando gestos parciais. Antes, com a proibição do tráfico, a lei do ventre livre, a alforria dos sexagenários. Agora, com o bolsa família, o voto do analfabeto ou a aposentadoria rural. Medidas generosas, para inglês ver e sem a ousadia da abolição plena.

Somos escravocratas porque, como no século XIX, não percebemos a estupidez de não abolirmos a escravidão. Ficamos na mesquinhez dos nossos interesses imediatos negando fazer a revolução educacional que poderia completar a quase-abolição de 1888. Não ousamos romper as amarras que envergonham e impedem nosso salto para uma sociedade civilizada, como, por 350 anos, a escravidão nos envergonhava e amarrava nosso avanço.

Cem anos depois da morte de Joaquim Nabuco, a obra criada pela escravidão continua, porque continuamos escravocratas. E, ao continuarmos escravocratas, não libertamos os escravos condenados à falta de educação.

CRISTOVAM BUARQUE

Adaptado de http://oglobo.globo.com, 30/01/2000.

Ficamos na mesquinhez dos nossos interesses imediatos negando fazer a revolução educacional que poderia completar a quase-abolição de 1888. (\ell. 39-40)

A criação da palavra composta, quase-abolição, cumpre principalmente a função de:

  1. A
    desfazer a contradição entre os termos
  2. B
    estabelecer a gradação entre os termos
  3. C
    enfatizar a abstração de um dos termos
  4. D
    restringir o sentido de um dos termos
Escolha uma alternativa para conferir o gabarito.
Reportar erro na questão
O que está errado?
Sem cadastro: não guardamos quem enviou.
Resolução comentada

Em "quase-abolição", o advérbio quase se junta ao substantivo abolição. A abolição, em si, significa o fim total da escravidão. O advérbio quase diminui essa totalidade: indica que a abolição de 1888 não foi completa.

É o que o texto defende. O autor diz que as leis de 1888 acabaram com a escravidão legal, mas não com a "obra da escravidão" (exclusão social, falta de educação). Por isso a "revolução educacional" é que "completaria" a abolição.

Portanto, a palavra composta serve para restringir o sentido de abolição: ela deixa de ser plena e passa a ser parcial.

Conferindo as demais:

  1. Não há contradição a desfazer. O que existe é uma ressalva, que mantém a tensão entre os dois termos.
  2. Não há uma escala com graus entre quase e abolição. O advérbio apenas limita o substantivo.
  3. Abolição já é um termo abstrato, e quase não enfatiza isso.

Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO advérbio não desfaz contradição nenhuma; ele introduz uma ressalva que limita a abolição.
  • BNão há gradação entre os termos; quase apenas restringe o sentido de abolição.
  • CA abstração de abolição já existe e quase não a enfatiza; ele a limita.

Assunto: Formação de palavras e neologismos.

Reportar erro na resolução
O que está errado?
Sem cadastro: não guardamos quem enviou.
Ver como caiu na prova Questão 10 no caderno 2º Exame de Qualificação da UERJ 2013

Fonte: UERJ 2013 · 2º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗