PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 7 (1º exame) da UERJ 2012
Texto-base das questões 03 a 07 · 1º Exame de Qualificação
O chá, os fantasmas, os ventos encanados...
Nasci no tempo dos ventos encanados, quando, para evitar compromissos, a “gente bem” dizia estar com enxaqueca, palavra horrível mas desculpa distinta. Ter enxaqueca não era para todos, mas só para essas senhoras que tomavam chá com o dedo mindinho espichado. Quando eu via aquilo, ficava a pensar sozinho comigo (menino, naqueles tempos, não dava opinião) por que é que elas não usavam, para cúmulo da elegância, um laçarote azul no dedo... Também se falava misteriosamente em “moléstias de senhoras” nos anúncios farmacêuticos que eu lia. Era decerto uma coisa privativa das senhoras, como as enxaquecas, pois as criadas, essas, não tinham tempo para isso. Mas, em compensação, me assustavam deliciosamente com histórias de assombrações. Nunca me apareceu nenhuma. Pelo visto, era isso: nunca consegui comunicar-me com este nem com o outro mundo. A não ser através d’O tico-tico e da poesia de Camões, do qual até hoje me assombra este verso único: “Que o menor mal de tudo seja a morte!” Pois a verdadeira poesia sempre foi um meio de comunicação com este e com o outro mundo.
MÁRIO QUINTANA
Mario Quintana: poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
Ter enxaqueca não era para todos, (\ell. 2)
Considerando que a afirmação acima não pode ser verdadeira, conclui-se que ela é feita para expressar outro sentido, menos literal.
O sentido expresso pela afirmação, no texto, pode ser definido como:
- Ametonímico
- Bhiperbólico
- Cmetafórico
- Dirônico
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Resolução comentada
A frase "Ter enxaqueca não era para todos" não pode ser lida ao pé da letra: a enxaqueca é uma dor, uma doença, e ninguém a "escolhe" nem a tem por privilégio de classe. O enunciado pede o sentido figurado que a frase assume no texto.
O contexto esclarece. Logo antes, o narrador diz que a "gente bem" alegava enxaqueca "para evitar compromissos", uma "desculpa distinta". Portanto, a enxaqueca era um pretexto social, e não uma doença verdadeira. Depois, ele diz que só as senhoras elegantes, de dedo mindinho espichado, podiam ter essa enxaqueca.
Ao afirmar que ter enxaqueca "não era para todos", como se fosse um privilégio ou um artigo de luxo, o autor diz o contrário do que seria razoável (ninguém deseja uma dor) para criticar a futilidade e a pretensão dessas senhoras. Dizer uma coisa para sugerir outra, com tom de crítica, é a definição de ironia.
Os outros sentidos não servem:
- Não há exagero de intensidade, que seria hipérbole.
- Não há troca de um termo por outro vizinho (parte pelo todo, autor pela obra), que seria metonímia.
- Não há comparação implícita entre elementos de campos distintos, que seria metáfora.
Alternativa D.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AMetonímia troca um termo por outro com relação de proximidade (parte pelo todo, causa pelo efeito); aqui não há essa substituição.
- BHipérbole é exagero; a frase não amplia a enxaqueca, ela a trata como privilégio com intenção crítica.
- CMetáfora exige uma comparação implícita entre dois elementos, que não existe na frase.
Assunto: Humor, ironia e crítica social.
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Fonte: UERJ 2012 · 1º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗