PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 14 (1º exame) da UERJ 2012
Texto-base das questões 08 a 15 · 1º Exame de Qualificação
Memórias do cárcere
Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos – e, antes de começar, digo os motivos por que silenciei e por que me decido. Não conservo notas: algumas que tomei foram inutilizadas, e assim, com o decorrer do tempo, ia-me parecendo cada vez mais difícil, quase impossível, redigir esta narrativa. Além disso, julgando a matéria superior às minhas forças, esperei que outros mais aptos se ocupassem dela. Não vai aqui falsa modéstia, como adiante se verá. Também me afligiu a ideia de jogar no papel criaturas vivas, sem disfarces, com os nomes que têm no registro civil. Repugnava-me deformá-las, dar-lhes pseudônimo, fazer do livro uma espécie de romance; mas teria eu o direito de utilizá-las em história presumivelmente verdadeira? Que diriam elas se se vissem impressas, realizando atos esquecidos, repetindo palavras contestáveis e obliteradas? (...)
O receio de cometer indiscrição exibindo em público pessoas que tiveram comigo convivência forçada já não me apoquenta. Muitos desses antigos companheiros distanciaram-se, apagaram- se. Outros permaneceram junto a mim, ou vão reaparecendo ao cabo de longa ausência, alteram- se, completam-se, avivam recordações meio confusas – e não vejo inconveniência em mostrá-los. (...)
E aqui chego à última objeção que me impus. Não resguardei os apontamentos obtidos em largos dias e meses de observação: num momento de aperto fui obrigado a atirá-los na água. Certamente me irão fazer falta, mas terá sido uma perda irreparável? Quase me inclino a supor que foi bom privar-me desse material. Se ele existisse, ver-me-ia propenso a consultá-lo a cada instante, mortificar-me-ia por dizer com rigor a hora exata de uma partida, quantas demoradas tristezas se aqueciam ao sol pálido, em manhã de bruma, a cor das folhas que tombavam das árvores, num pátio branco, a forma dos montes verdes, tintos de luz, frases autênticas, gestos, gritos, gemidos. Mas que significa isso? Essas coisas verdadeiras podem não ser verossímeis. E se esmoreceram, deixá-las no esquecimento: valiam pouco, pelo menos imagino que valiam pouco. Outras, porém, conservaram-se, cresceram, associaram-se, e é inevitável mencioná- las. Afirmarei que sejam absolutamente exatas? Leviandade. (...) Nesta reconstituição de fatos velhos, neste esmiuçamento, exponho o que notei, o que julgo ter notado. Outros devem possuir lembranças diversas. Não as contesto, mas espero que não recusem as minhas: conjugam-se, completam-se e me dão hoje impressão de realidade. Formamos um grupo muito complexo, que se desagregou. De repente nos surge a necessidade urgente de recompô-lo. Define-se o ambiente, as figuras se delineiam, vacilantes, ganham relevo, a ação começa. Com esforço desesperado arrancamos de cenas confusas alguns fragmentos. Dúvidas terríveis nos assaltam. De que modo reagiram os caracteres em determinadas circunstâncias? O ato que nos ocorre, nítido, irrecusável, terá sido realmente praticado? Não será incongruência? Certo a vida é cheia de incongruências, mas estaremos seguros de não nos havermos enganado? Nessas vacilações dolorosas, às vezes necessitamos confirmação, apelamos para reminiscências alheias, convencemo-nos de que a minúcia discrepante não é ilusão. Difícil é sabermos a causa dela, desenterrarmos pacientemente as condições que a determinaram. Como isso variava em excesso, era natural que variássemos também, apresentássemos falhas. Fiz o possível por entender aqueles homens, penetrar-lhes na alma, sentir as suas dores, admirar-lhes a relativa grandeza, enxergar nos seus defeitos a sombra dos meus defeitos. Foram apenas bons propósitos: devo ter-me revelado com frequência egoísta e mesquinho. E esse desabrochar de sentimentos maus era a pior tortura que nos podiam infligir naquele ano terrível.
GRACILIANO RAMOS
Memórias do cárcere. Rio de Janeiro: Record, 2002.
Essas coisas verdadeiras podem não ser verossímeis. (\ell. 22)
Com a frase acima, o escritor lembra um princípio básico da literatura: a verossimilhança – isto é, a semelhança com a verdade – é mais importante do que a verdade mesma.
A melhor explicação para este princípio é a de que a invenção narrativa se mostra mais convincente se:
- Aparece contar uma história real
- Bquer mostrar seu caráter ficcional
- Cbusca apoiar-se em fatos conhecidos
- Dtenta desvelar as contradições sociais
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Resolução comentada
Distinga dois conceitos. Verdade é o que de fato aconteceu. Verossimilhança é a coerência interna de um relato, que o leitor aceita como possível e crível, mesmo que seja inventado.
Graciliano escreve que "essas coisas verdadeiras podem não ser verossímeis". Ou seja, um fato real, mas estranho ou incongruente, pode soar falso quando narrado. Já uma invenção bem construída pode soar autêntica.
O enunciado pede a melhor explicação de por que a verossimilhança pesa mais que a verdade na literatura: a invenção convence mais quando passa a impressão de ser real.
Conferindo as opções:
- Se a narrativa parece contar uma história real, o leitor a aceita como crível. É o que define a verossimilhança, a semelhança com a verdade.
- Mostrar o caráter ficcional não gera credibilidade, pois evidencia o artifício.
- Apoiar-se em fatos conhecidos aproxima da verdade factual, e o próprio trecho mostra que a verdade nem sempre convence.
- Desvelar contradições sociais é uma intenção temática, que nada tem a ver com o efeito de credibilidade.
O que importa é a aparência de realidade, não a realidade em si.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BExpor o caráter ficcional quebra a ilusão de realidade, o oposto da verossimilhança.
- CApoiar-se em fatos conhecidos equivale a fidelidade à verdade factual, que o texto diz não bastar para convencer.
- DRevelar contradições sociais é objetivo temático e crítico, sem relação com a credibilidade da invenção.
Assunto: Personagem, enredo, tempo e espaço.
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Fonte: UERJ 2012 · 1º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗