PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 10 (1º exame) da UERJ 2012
Texto-base das questões 08 a 15 · 1º Exame de Qualificação
Memórias do cárcere
Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos – e, antes de começar, digo os motivos por que silenciei e por que me decido. Não conservo notas: algumas que tomei foram inutilizadas, e assim, com o decorrer do tempo, ia-me parecendo cada vez mais difícil, quase impossível, redigir esta narrativa. Além disso, julgando a matéria superior às minhas forças, esperei que outros mais aptos se ocupassem dela. Não vai aqui falsa modéstia, como adiante se verá. Também me afligiu a ideia de jogar no papel criaturas vivas, sem disfarces, com os nomes que têm no registro civil. Repugnava-me deformá-las, dar-lhes pseudônimo, fazer do livro uma espécie de romance; mas teria eu o direito de utilizá-las em história presumivelmente verdadeira? Que diriam elas se se vissem impressas, realizando atos esquecidos, repetindo palavras contestáveis e obliteradas? (...)
O receio de cometer indiscrição exibindo em público pessoas que tiveram comigo convivência forçada já não me apoquenta. Muitos desses antigos companheiros distanciaram-se, apagaram- se. Outros permaneceram junto a mim, ou vão reaparecendo ao cabo de longa ausência, alteram- se, completam-se, avivam recordações meio confusas – e não vejo inconveniência em mostrá-los. (...)
E aqui chego à última objeção que me impus. Não resguardei os apontamentos obtidos em largos dias e meses de observação: num momento de aperto fui obrigado a atirá-los na água. Certamente me irão fazer falta, mas terá sido uma perda irreparável? Quase me inclino a supor que foi bom privar-me desse material. Se ele existisse, ver-me-ia propenso a consultá-lo a cada instante, mortificar-me-ia por dizer com rigor a hora exata de uma partida, quantas demoradas tristezas se aqueciam ao sol pálido, em manhã de bruma, a cor das folhas que tombavam das árvores, num pátio branco, a forma dos montes verdes, tintos de luz, frases autênticas, gestos, gritos, gemidos. Mas que significa isso? Essas coisas verdadeiras podem não ser verossímeis. E se esmoreceram, deixá-las no esquecimento: valiam pouco, pelo menos imagino que valiam pouco. Outras, porém, conservaram-se, cresceram, associaram-se, e é inevitável mencioná- las. Afirmarei que sejam absolutamente exatas? Leviandade. (...) Nesta reconstituição de fatos velhos, neste esmiuçamento, exponho o que notei, o que julgo ter notado. Outros devem possuir lembranças diversas. Não as contesto, mas espero que não recusem as minhas: conjugam-se, completam-se e me dão hoje impressão de realidade. Formamos um grupo muito complexo, que se desagregou. De repente nos surge a necessidade urgente de recompô-lo. Define-se o ambiente, as figuras se delineiam, vacilantes, ganham relevo, a ação começa. Com esforço desesperado arrancamos de cenas confusas alguns fragmentos. Dúvidas terríveis nos assaltam. De que modo reagiram os caracteres em determinadas circunstâncias? O ato que nos ocorre, nítido, irrecusável, terá sido realmente praticado? Não será incongruência? Certo a vida é cheia de incongruências, mas estaremos seguros de não nos havermos enganado? Nessas vacilações dolorosas, às vezes necessitamos confirmação, apelamos para reminiscências alheias, convencemo-nos de que a minúcia discrepante não é ilusão. Difícil é sabermos a causa dela, desenterrarmos pacientemente as condições que a determinaram. Como isso variava em excesso, era natural que variássemos também, apresentássemos falhas. Fiz o possível por entender aqueles homens, penetrar-lhes na alma, sentir as suas dores, admirar-lhes a relativa grandeza, enxergar nos seus defeitos a sombra dos meus defeitos. Foram apenas bons propósitos: devo ter-me revelado com frequência egoísta e mesquinho. E esse desabrochar de sentimentos maus era a pior tortura que nos podiam infligir naquele ano terrível.
GRACILIANO RAMOS
Memórias do cárcere. Rio de Janeiro: Record, 2002.
Graciliano Ramos busca dar uma explicação mais objetiva ao leitor sobre os motivos que justificam seu relato. Entretanto, já nesta explicação, o autor lança mão de recursos da linguagem figurada, frequentes no discurso literário.
O fragmento do texto que melhor exemplifica o uso de linguagem figurada é:
- Adar-lhes pseudônimo, fazer do livro uma espécie de romance; (\ell. 7-8)
- BOutros permaneceram junto a mim, ou vão reaparecendo (\ell. 13)
- Cquantas demoradas tristezas se aqueciam ao sol pálido, (\ell. 19-20)
- Dàs vezes necessitamos confirmação, apelamos para reminiscências alheias, (\ell. 34-35)
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Resolução comentada
Linguagem figurada é aquela em que as palavras saem do sentido literal, por meio de metáfora, personificação, sinestesia e outras figuras. O enunciado pede o fragmento que melhor exemplifica esse recurso. Vamos testar cada um.
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(A) "dar-lhes pseudônimo, fazer do livro uma espécie de romance": o sentido é literal. O autor diz que não quer transformar o relato em ficção. A expressão "uma espécie de" apenas aproxima o livro do gênero romance, sem criar imagem.
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(B) "Outros permaneceram junto a mim, ou vão reaparecendo": é uma informação objetiva sobre antigos companheiros que ficaram ou voltaram a aparecer.
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(C) "quantas demoradas tristezas se aqueciam ao sol pálido": as tristezas, que são sentimentos abstratos, recebem ações de seres vivos, "se aqueciam", e também a qualidade de "demoradas". Isso é personificação. O "sol pálido" atribui ao sol uma característica humana, a palidez. Há aí uma imagem poética, ou seja, linguagem figurada.
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(D) "necessitamos confirmação, apelamos para reminiscências alheias": é literal. Significa pedir ajuda à memória de outras pessoas.
Só o trecho (C) altera o sentido próprio das palavras para criar uma imagem.
Alternativa C.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AEstá em sentido literal: o autor diz que não quer fazer do livro um romance, sem criar imagem.
- BInforma de modo direto que alguns companheiros permaneceram ou reapareceram, sem figura.
- D"Apelar para reminiscências alheias" é expressão literal, que significa recorrer à memória de outros.
Assunto: Linguagem literária e figuras de linguagem.
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Fonte: UERJ 2012 · 1º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗