PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 7 (1º semestre) do Sírio-Libanês 2026

1º semestre · Português: Formação de palavras e neologismos

Texto-base das questões 03 a 07 · Prova II

Para responder às questões de 03 a 07, leia a crônica “Que seria de mim sem a Solange?”, do escritor Humberto Werneck, publicada originalmente em novembro de 12.12.2010.

1 — Meu cabelo está pendoando — anuncia a prima, apalpando as melenas.

Tenho anos, décadas de Solange, mas confesso que ela, com o seu solangês, às vezes me pega desprevenido.

— Seu cabelo está o quê?

— Pendoando — insiste ela — e, com a paciência de quem explica algo elementar a um total ignorante, traduz:

5 — Bifurcando nas extremidades.

É assim a Solange, criatura para a qual ninguém morre, mas falece, e, quando sobrevém esse infausto acontecimento, tem seu corpo acondicionado num ataúde, num esquife, quiçá num féretro, para ser inumado1 em alguma necrópole, ou, mais recentemente, incinerado em crematório. Cabelo de gente assim não se torna vulgarmente quebradiço, que nem o seu e o meu: pendoa, bifurca-se nas extremidades. Pendoado ou não, convém às mulheres prendê-lo com ramonas — que é como a Solange se refere ao grampo, desde que, faz tempo, foi passar uns meses no Triângulo Mineiro. [...]

Você pode achar que estou sendo implicante, metido a policiar a linguagem alheia. Brasileiro é assim mesmo, adora embonitar a conversa para impressionar os outros. Sei disso. Eu próprio já andei escrevendo sobre o que chamei de ruibarbosismo2: o uso de palavreado rebarbativo3 como forma de, numa discussão, reduzir ao silêncio o interlocutor ignaro4. Uma espécie de gás paralisante verbal. Mais de uma vez vi gente de queixo caído ante as extravagâncias vocabulares que o Antônio Houaiss aspergia na mais prosaica mesa de boteco. Ninguém achava que fossem — para dizer como ele — coisas de encher quaisquer sacos. No mesmo time, mas sem o saber e a simpatia do grande lexicógrafo, jogava o Jânio Quadros, com seus quilos de “fi-lo” e suas mesóclises.

A Solange também é chegada nessas construções entrecortadas por hífens. O Senhor mo-lo deu, o Senhor mo-lo tomará, costuma recitar, menos por fé religiosa, suponho, do que por gosto pela fala picotada. Parece achar que o Criador coloca bem os pronomes. Estou vendo a hora em que a prima virá para cima de mim com um “ser-lhe-ão”.

9 Mas a Solange, é preciso que eu vo-lo diga, não pertence ao time do Houaiss ou do Jânio. Ela não quer impressionar ninguém. Quer apenas dar o seu recado, que sucede vir envelopado em fala engomada. Não se sente minimamente pedante. Apenas acredita que, se está no dicionário, é para usar — e usa. [...]

(Humberto Werneck. Esse inferno vai acabar, 2011.)

1 inumado: enterrado.

2 ruibarbosismo: neologismo derivado de Rui Barbosa.

3 rebarbativo: excessivo.

4 ignaro: ignorante.

Diferentemente dos processos de formação vocabular que consistem em acréscimo ou subtração de afixos a um radical, um vocábulo também pode ser formado quando passa de uma classe gramatical a outra, sem a modificação de sua forma. É o que se denomina derivação imprópria. Constitui exemplo de derivação imprópria o vocábulo sublinhado em:

  1. A
    “Brasileiro é assim mesmo, adora embonitar a conversa para impressionar os outros.” (7o parágrafo)
  2. B
    “O Senhor mo-lo deu, o Senhor mo-lo tomará, costuma recitar, menos por fé religiosa, suponho, do que por gosto pela fala picotada.” (8o parágrafo)
  3. C
    “Você pode achar que estou sendo implicante, metido a policiar a linguagem alheia.” (7o parágrafo)
  4. D
    “No mesmo time, mas sem o saber e a simpatia do grande lexicógrafo, jogava o Jânio Quadros, com seus quilos de ‘fi-lo’ e suas mesóclises.” (7o parágrafo)
  5. E
    “Mais de uma vez vi gente de queixo caído ante as extravagâncias vocabulares que o Antônio Houaiss aspergia na mais prosaica mesa de boteco.” (7o parágrafo)
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Resolução comentada

Na derivação imprópria (conversão), a palavra muda de classe gramatical sem mudar a forma: não ganha nem perde afixo. Um sinal clássico é o verbo no infinitivo usado como substantivo, geralmente acompanhado de artigo ou outro determinante.

Analisando cada trecho:

  1. "impressionar": verbo no infinitivo, que continua sendo verbo ("para impressionar os outros", com complemento direto). Não houve mudança de classe.
  2. "recitar": verbo, com a função de verbo da oração ("costuma recitar"). Não houve mudança.
  3. "linguagem": substantivo formado de "língua" + sufixo "-agem". É derivação sufixal, ou seja, acréscimo de afixo.
  4. "saber": aparece depois do artigo "o" ("sem o saber") e tem como sentido "conhecimento". O verbo virou substantivo mantendo a mesma forma. Isso é derivação imprópria.
  5. "extravagâncias": vem de "extravagante" + sufixo "-ia", com alteração da terminação. É derivação sufixal.

Portanto, só em "o saber" houve mudança de classe (verbo para substantivo) sem alteração da forma.

Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • A"impressionar" é verbo no infinitivo e continua verbo, com complemento; não mudou de classe.
  • B"recitar" funciona como verbo ("costuma recitar"), sem conversão de classe.
  • C"linguagem" se forma por derivação sufixal (língua + -agem), que é acréscimo de afixo.
  • E"extravagâncias" é derivada de "extravagante" por sufixação, não por mudança de classe.

Assuntos: Formação de palavras e neologismos, Classes de palavras.

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Fonte: Sírio-Libanês 2026 · 1º semestre · Prova II. Prova oficial ↗