Questão 4 (2º semestre) do São Camilo 2025

2º semestre

Moacyr Scliar, para responder às questões de 01 a 04. · Prova II

Em “A saúde dos doentes”, o grande escritor argentino Julio Cortázar conta uma história patética. Trata-se de um rapaz que deixa a Argentina para morar no exterior (em Recife, especificamente) e morre. Além da dor representada por essa perda, a família vê-se diante de um sombrio problema: como dar a notícia à mãe do falecido, ela própria portadora de uma séria doença cardíaca? Decidem, então, manter a ilusão de que o jovem continua vivo. Para isso, forjam cartas dele. O truque funciona à perfeição — as cartas são tão convincentes que até a família acredita nelas. De repente, morre a mãe. E Cortázar encerra o conto com aquelas pessoas colocando-se, involuntariamente, outra questão: como dar ao familiar de Recife a notícia da morte da mãe?

O que temos aí é uma mentira piedosa, tão piedosa que exigiu o comprometimento de várias pessoas, as quais, por sua vez, comprometeram-se tanto com a piedosa mentira que chegaram a acreditar nela.

O drama vivido pela fictícia família é aquele que muitos médicos enfrentam. Como dar uma má notícia? Como dizer a uma pessoa que ela está com câncer terminal?

No passado, o princípio básico era poupar o doente, mesmo que à custa de uma encenação. [...] Essa situação começou a mudar a partir dos Estados Unidos. Lá, pacientes processavam médicos exatamente por não terem sido informados de um diagnóstico sério e de um prognóstico reservado. Por causa disso, alegavam, não tinham posto suas coisas em ordem — em termos de testamento, de providências várias. E os médicos passaram, então, a uma seca objetividade. Há casos em que o paciente é informado pelo telefone: “Recebi o laudo de sua biópsia. É câncer.”

Claramente, o pêndulo oscilou na direção oposta. E será preciso conseguir uma nova posição de equilíbrio. Uma posição em que a verdade possa ser revelada, mas num clima de mútua compreensão. O que a medicina, inclusive, agora permite: câncer há muito tempo deixou de ser uma condenação para ser o diagnóstico de uma situação que, grave às vezes, sempre permite providências e não raro uma cura definitiva. Nem a mentira piedosa nem o brusco anúncio.

(Moacyr Scliar. O olhar médico: crônicas de medicina e saúde, 2005.)

Apesar de estar na forma plural, refere-se a um sujeito expresso anteriormente no singular o verbo sublinhado em:

  1. A
    “Decidem, então, manter a ilusão de que o jovem continua vivo” (1o parágrafo).
  2. B
    “O que temos aí é uma mentira piedosa” (2o parágrafo).
  3. C
    “as quais, por sua vez, comprometeram-se tanto com a piedosa mentira que chegaram a acreditar nela” (2o parágrafo).
  4. D
    “Por causa disso, alegavam, não tinham posto suas coisas em ordem” (4o parágrafo).
  5. E
    “E os médicos passaram, então, a uma seca objetividade” (4o parágrafo).
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Fonte: São Camilo 2025 · 2º semestre · Prova II. Prova oficial ↗