PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 16 do ITA 2024
No conto “Dina”, de Luís Bernardo Honwana, o capataz, ao descobrir que Maria é filha de Madala, desespera-se e oferece ao ancião a tarde de folga para que ele possa conversar com a moça. Tal passagem sugere que:
- Ao capataz se arrependeu de ter violentado Maria, pois nutria por Madala grande estima e consideração.
- Bapesar de todas as violências cometidas pelo capataz contra os negros, estuprar uma mulher na presença do pai dela extrapola toda e qualquer ética possível entre homens.
- CMadala recebia do capataz um tratamento privilegiado, principalmente em relação ao tempo de descanso, e, por isso, era menosprezado por seus iguais.
- Do capataz teve receio de alguma tentativa de retaliação por parte de Madala e seus companheiros, o que o fez reavaliar as suas atitudes violentas.
- Epor ter se apaixonado pela moça, o capataz quis agradar ao seu velho pai, por quem nutria grande afeto, respeito e consideração.
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Resolução comentada
A reação do capataz revela um limite moral dentro de uma relação marcada pela violência colonial. Ele já havia violentado Maria, mas se desespera quando descobre que Madala é o pai da moça. Portanto, o elemento que altera sua atitude não é a violência em si: é o reconhecimento do vínculo entre a vítima e o ancião presente naquele contexto.
Ao oferecer a tarde de folga, o capataz tenta amenizar uma situação cuja gravidade acaba de reconhecer. Esse gesto não desfaz o estupro nem transforma a exploração em uma relação de respeito. A passagem expõe justamente a contradição entre a violência praticada contra os negros e o reconhecimento de uma barreira ética quando a paternidade de Madala se torna conhecida.
Não há fundamento para interpretar essa reação como amor por Maria, estima profunda por Madala ou privilégio habitual concedido ao trabalhador. Também não se deve substituir o constrangimento evidenciado pela cena por uma suposta ameaça de retaliação.
Assim, a passagem sugere que violentar a filha na presença do pai ultrapassa até os limites admitidos naquela ordem brutal.
Alternativa B.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AAtribui o desespero à estima por Madala, sentimento que a passagem não sustenta.
- CTransforma uma concessão excepcional em tratamento privilegiado habitual e acrescenta o desprezo dos companheiros.
- DAtribui a reação ao medo de retaliação, em vez de ao reconhecimento do vínculo entre Maria e Madala.
- EInventa paixão por Maria e afeto pelo pai dela, incompatíveis com a interpretação da violência apresentada.
Assuntos: interpretação literária, literatura moçambicana, violência colonial.
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Fonte: ITA 2024 · 1ª fase. Prova oficial ↗