PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 16 do ITA 2023
Leia o trecho destacado do conto “Tempo de camisolinha”, de Mário de Andrade, e, em seguida, assinale a alternativa incorreta.
“Estavam uns pescadores ali mesmo na esquina, conversando, e me meti no meio deles, sempre era uma proteção. E todos eles eram casados, tinham filhos, não se amolavam proletariamente com os filhos, mas proletariamente davam muita importância pra o filhinho de ‘seu dotô’ meu pai, que nem era doutor, graças a Deus.” (p. 106).
- Aos pescadores “não se amolavam proletariamente” com os próprios filhos porque a sua obrigação proletária era apenas garantir o sustento das próprias famílias.
- Bo uso de “seu dotô” é justificado para expressar a fala supostamente informal dos pescadores para atribuir prestígio ao pai do narrador.
- Co trecho destacado sugere uma posição específica do narrador, distante tanto dos “proletários” quanto dos “doutores” retratados.
- Dos pescadores davam muita importância ao “filho do dotô” porque o consideravam mais vulnerável do que os seus próprios filhos.
- Enão há, no uso da expressão “seu dotô”, nenhuma menção à diferença de classes sociais.
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Resolução comentada
A questão pede a alternativa incorreta, então é preciso achar a afirmação que contradiz o trecho.
No trecho, o narrador (um menino perdido, que se refugia entre os pescadores) observa que eles, sendo proletários, não davam grande atenção aos próprios filhos. Mesmo assim, davam muita importância ao filho de "seu dotô", seu pai. Essa expressão é a fala popular, com a pronúncia reduzida de "doutor", usada como tratamento respeitoso a quem tem posição social superior. O narrador ironiza: o pai "nem era doutor, graças a Deus".
Agora, alternativa por alternativa:
- (A) é plausível: a leitura de que o proletário só se ocupa de sustentar a família é compatível com "não se amolavam proletariamente".
- (B) está correta: "seu dotô" reproduz a fala popular e confere prestígio ao pai.
- (C) está correta: o narrador ironiza os dois grupos, pois a deferência dos pescadores é vista com distanciamento e ele rejeita o título de doutor do pai.
- (D) é a que erra: o texto não diz que o menino era considerado mais vulnerável. A importância dada a ele vem do status do pai, e não de fragilidade.
- (E) também é incorreta, pois a expressão "seu dotô" marca justamente a diferença de classes. Mas ela é muito mais evidentemente falsa, já que o trecho todo gira em torno da distinção proletário/doutor.
Como a questão pede a incorreta, a que mais nitidamente contradiz o texto é a que nega qualquer menção a classes sociais, o ponto central do trecho: "proletariamente", "seu dotô", "doutor".
Alternativa E.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AÉ leitura aceitável: a obrigação proletária ligada ao sustento explica o pouco apego ostentado aos filhos.
- BEstá correta: "seu dotô" reproduz a fala popular e atribui prestígio ao pai do narrador.
- CEstá correta: a ironia mostra o narrador distante tanto dos proletários quanto dos doutores.
- DAtribui a deferência a uma suposta vulnerabilidade do menino, algo que o texto não afirma; ela vem do status do pai.
Assuntos: interpretação de texto, Mário de Andrade, variação linguística.
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Fonte: ITA 2023 · 1ª fase. Prova oficial ↗