PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 23 (Português) do ITA 2017
Texto-base das questões 21 a 25 · Português
As questões de 21 a 25 referem-se ao Texto 1.
Texto 1: A mídia realmente tem o poder de manipular as pessoas?
Por Francisco Fernandes Ladeira
À primeira vista, a resposta para a pergunta que intitula este artigo parece simples e óbvia: sim, a mídia é um poderoso instrumento de manipulação. A ideia de que o frágil cidadão comum é impotente frente aos gigantescos e poderosos conglomerados da comunicação é bastante atrativa intelectualmente. Influentes nomes, como Adorno e Horkheimer, os primeiros pensadores a realizar análises mais sistemáticas sobre o tema, concluíram que os meios de comunicação em larga escala moldavam e direcionavam as opiniões de seus receptores. Segundo eles, o rádio torna todos os ouvintes iguais ao sujeitá-los, autoritariamente, aos idênticos programas das várias estações. No livro Televisão e Consciência de Classe, Sarah Chucid Da Viá afirma que o vídeo apresenta um conjunto de imagens trabalhadas, cuja apreensão é momentânea, de forma a persuadir rápida e transitoriamente o grande público. Por sua vez, o psicólogo social Gustav Le Bon considerava que, nas massas, o indivíduo deixava de ser ele próprio para ser um autômato sem vontade e os juízos aceitos pelas multidões seriam sempre impostos e nunca discutidos. Assim, fomentou-se a concepção de que a mídia seria capaz de manipular incondicionalmente uma audiência submissa, passiva e acrítica.
Todavia, como bons cidadãos céticos, devemos duvidar (ou ao menos manter certa ressalva) de proposições imediatistas e aparentemente fáceis. As relações entre mídia e público são demasiadamente complexas, vão muito além de uma simples análise behaviorista de estímulo/resposta. As mensagens transmitidas pelos grandes veículos de comunicação não são recebidas automaticamente e da mesma maneira por todos os indivíduos. Na maioria das vezes, o discurso midiático perde seu significado original na controversa relação emissor/receptor. Cada indivíduo está envolto em uma “bolha ideológica”, apanágio de seu próprio processo de individuação, que condiciona sua maneira de interpretar e agir sobre o mundo. Todos nós, ao entramos em contato com o mundo exterior, construímos representações sobre a realidade. Cada um de nós forma juízos de valor a respeito dos vários âmbitos do real, seus personagens, acontecimentos e fenômenos e, consequentemente, acreditamos que esses juízos correspondem à “verdade”. [...]
[...] A mídia é apenas um, entre vários quadros ou grupos de referência, aos quais um indivíduo recorre como argumento para formular suas opiniões. Nesse sentido, competem com os veículos de comunicação como quadros ou grupos de referência fatores subjetivos/psicológicos (história familiar, trajetória pessoal, predisposição intelectual), o contexto social (renda, sexo, idade, grau de instrução, etnia, religião) e o ambiente informacional (associação comunitária, trabalho, igreja). “Os vários tipos de receptor situam-se numa complexa rede de referências em que a comunicação interpessoal e a midiática se completam e modificam”, afirmou a cientista social Alessandra Aldé em seu livro A construção da política: democracia, cidadania e meios de comunicação de massa. Evidentemente, o peso de cada quadro de referência tende a variar de acordo com a realidade individual. Seguindo essa linha de raciocínio, no original estudo Muito Além do Jardim Botânico, Carlos Eduardo Lins da Silva constatou como telespectadores do Jornal Nacional acionam seus mecanismos de defesa, individuais ou coletivos, para filtrar as informações veiculadas, traduzindo-as segundo seus próprios valores. “A síntese e as conclusões que um telespectador vai realizar depois de assistir a um telejornal não podem ser antecipadas por ninguém; nem por quem produziu o telejornal, nem por quem assistiu ao mesmo tempo que aquele telespectador”, inferiu Carlos Eduardo.
Adaptado de: http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/a-midia-realmente-tem-o-poder-de-manipular-as-pessoas/.
(Publicado em 14/04/2015, na edição 846. Acesso em 13/07/2016.)
Com relação às estratégias argumentativas utilizadas no texto, é correto afirmar que o autor
- Avale-se da pergunta retórica do título, respondida afirmativamente por ele mesmo.
- Bapresenta apenas posicionamentos de estudiosos que são idênticos aos seus.
- Cvale-se do uso das aspas nos quatro momentos para se distanciar daquilo que é dito.
- Dutiliza a primeira pessoa do plural para se aproximar do leitor e o persuadir sobre seu ponto de vista.
- Eapresenta com total imparcialidade pontos de vista diversos sobre a manipulação da mídia.
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Resolução comentada
A questão pede a estratégia argumentativa usada pelo autor. Vale olhar o que ele faz no texto.
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No primeiro parágrafo, ele expõe a tese que quer refutar: a mídia manipula (Adorno, Horkheimer, Le Bon). Em seguida, no segundo parágrafo, muda de posição com o "Todavia" e defende que a recepção é complexa e que o público filtra as mensagens.
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No segundo parágrafo, ele usa a primeira pessoa do plural: "devemos duvidar", "Todos nós", "construímos", "Cada um de nós", "acreditamos". Com isso, inclui o leitor no raciocínio, cria cumplicidade e o conduz à ideia de que cada um interpreta o mundo à sua maneira. Essa é uma estratégia clássica de persuasão.
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Conferindo as demais alternativas:
- O título não é respondido afirmativamente: o autor conclui que o poder da mídia é relativo.
- Nem todos os estudiosos citados concordam com ele: Adorno, Le Bon e Da Viá defendem a tese que ele questiona.
- As aspas aparecem em mais de quatro momentos e nem sempre marcam distanciamento. Em citações como a de Aldé, elas servem de argumento de autoridade.
- O autor não é totalmente imparcial: apresenta a visão oposta apenas para criticá-la.
Portanto, a alternativa que descreve corretamente a estratégia é a da primeira pessoa do plural.
Alternativa D.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO autor responde negativamente ao título: a resposta "sim" é apresentada só como visão inicial, que ele refuta.
- BCita estudiosos como Adorno, Horkheimer e Le Bon, cujas ideias são opostas às dele, para contrapô-las.
- CAs aspas não aparecem em exatamente quatro momentos e, em geral, introduzem citações de autoridade, não distanciamento.
- ENão há imparcialidade total: o autor apresenta a tese contrária para refutá-la e defende claramente seu ponto de vista.
Assunto: Estratégias e tipos de argumento.
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Fonte: ITA 2017 · Português. Prova oficial ↗