PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 26 (Português) do ITA 2016
Texto-base das questões 21 a 30 · Português
As questões de 21 a 30 referem-se ao texto a seguir:
Texto 1
Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...
Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo dinheiro para a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Aí o sinal fica verde e eu continuo.
"Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão enganados.
Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".
Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem. Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.
O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e sujas.
Para provar para todo mundo que não trabalhavam com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos, engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras.
(Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava para o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo – ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos seria general.)
Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas pelas universidades.
Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?". E as opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de vestibular?
Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.
Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes maior que o número de empregos.
Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre" que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista, encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas, as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais rendosas.
Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de S. Paulo, 25/05/2004.)
Assinale a opção que apresenta características de coloquialidade.
- AVou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. (linha 1)
- BO conselho é este: salvem-se enquanto é tempo! (linha 8)
- CAí o sinal fica verde e eu continuo. (linhas 8 e 9)
- DAcabaram de chegar ao último patamar. (linhas 13 e 14)
- EO diploma era mais que garantia de emprego. (linha 24)
Você já respondeu questões neste aparelho. Crie sua conta grátis para guardar o histórico e refazer as que errou.
Resposta salva no seu histórico.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
Coloquialidade é o uso de marcas da fala cotidiana, informal, em vez da norma mais formal da escrita. Entre essas marcas estão marcadores discursivos de oralidade ("aí", "então", "daí"), expressões vagas e construções típicas da conversa.
Vamos olhar cada trecho:
- Em (A), "Vou confessar um pecado" e "faço maldades" têm vocabulário comum, mas a construção é correta e neutra, sem marca típica de fala.
- Em (B), "salvem-se" usa o imperativo com ênclise, que é próprio da norma culta. A frase é um conselho em tom mais formal.
- Em (C), "Aí o sinal fica verde e eu continuo" tem duas marcas de oralidade. O "Aí" funciona como marcador de narrativa oral, no sentido de "então, depois disso". O presente do indicativo ("fica", "continuo") narra o fato como numa conversa. É a linguagem de quem conta um caso.
- Em (D), "Acabaram de chegar ao último patamar" usa vocabulário e estrutura mais formais, com a locução "acabar de" mais o infinitivo e "patamar" em sentido figurado.
- Em (E), "O diploma era mais que garantia de emprego" é uma comparação em registro padrão, sem marca de fala.
Só o trecho (C) reúne marcas claras de informalidade.
Alternativa C.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AA frase é correta e neutra, sem marcador de oralidade; "maldades" e "pecado" não bastam para marcar coloquialidade.
- BO imperativo com ênclise ("salvem-se") e a estrutura da frase seguem a norma culta, não a fala informal.
- D"Acabaram de chegar" e "patamar" pertencem a um registro mais formal, sem marca de oralidade.
- EÉ uma comparação em norma padrão, sem expressão ou construção típica da fala.
Assuntos: Oralidade e escrita, Norma-padrão, registros e adequação linguística.
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova
Fonte: ITA 2016 · Português. Prova oficial ↗