PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 24 (Português) do ITA 2016
Texto-base das questões 21 a 30 · Português
As questões de 21 a 30 referem-se ao texto a seguir:
Texto 1
Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...
Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo dinheiro para a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Aí o sinal fica verde e eu continuo.
"Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão enganados.
Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".
Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem. Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.
O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e sujas.
Para provar para todo mundo que não trabalhavam com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos, engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras.
(Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava para o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo – ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos seria general.)
Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas pelas universidades.
Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?". E as opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de vestibular?
Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.
Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes maior que o número de empregos.
Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre" que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista, encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas, as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais rendosas.
Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de S. Paulo, 25/05/2004.)
Assinale a opção que NÃO sustenta a tese do autor.
- AHá profissionais diplomados sem emprego.
- BHá diplomados descontentes com a carreira que escolheram.
- CAs melhores opções de carreira são as oferecidas pelas universidades.
- DExistem ofícios mais rentáveis que algumas carreiras de nível superior.
- EHá quem tenha trocado a profissão em que se diplomou por outro ofício.
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Resolução comentada
A tese do autor é que o diploma não é solução: a universidade não é a chave do mundo, existem ofícios sem diploma que podem ser mais felizes e mais rendosos, e o número de diplomados supera o de empregos. A questão pede a opção que não apoia essa ideia.
Veja cada alternativa:
- (A) Apoia a tese: o autor diz que há "multidão de jovens com diploma na mão, mas que não conseguem arranjar emprego".
- (B) Apoia: o exemplo do amigo reitor, infeliz na posição e "felicíssimo" como motorista de caminhão, mostra insatisfação com a carreira de prestígio.
- (C) Contradiz a tese. O autor critica justamente a "fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas pelas universidades" e diz que as alternativas fora dela são "por vezes mais felizes e mais rendosas".
- (D) Apoia: ele afirma que os ofícios podem ser "mais rendosos".
- (E) Apoia: o amigo professor largou a carreira acadêmica e virou motorista.
Portanto, a única afirmação que vai contra o texto é a que diz que as melhores opções de carreira são as universitárias.
Alternativa C.
Pegadinha: O enunciado pede a que NÃO sustenta a tese; quem lê distraído marca uma alternativa que concorda com o texto.
Por que as outras alternativas estão erradas
- ASustenta a tese: o autor afirma que há diplomados sem emprego porque os diplomados superam as vagas.
- BSustenta a tese: o amigo reitor era infeliz na posição e só ficou feliz como motorista.
- DSustenta a tese: o autor diz que os ofícios são alternativas por vezes mais rendosas.
- ESustenta a tese: o amigo professor abandonou a carreira e passou a ser motorista de caminhão.
Assunto: Tese, ponto de vista e estrutura argumentativa.
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Fonte: ITA 2016 · Português. Prova oficial ↗