PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 32 (Português) do ITA 2012
Texto-base das questões 30 a 34 · Português
As questões de 30 a 34 referem-se ao seguinte texto:
Texto 2
Gosto de olhar as capas das revistas populares no supermercado nestes tempos de corrida do ouro da classe C. A classe C é uma versão sem neve e de biquíni do Yukon do tio Patinhas quando jovem pato. Lembro do futuro milionário disneyano enfrentando a nevasca para obter suas primeiras patacas. Era preciso conquistar aquele território com a mesma sofreguidão com que se busca, agora, fincar a bandeira do consumo no seio dos emergentes brasileiros. Em termos jornalísticos, é sempre aquela concepção de não oferecer o biscoito fino para a massa. É preciso dar o que a classe C quer ler – ou o que se convencionou a pensar que ela quer ler. Daí as políticas de didatismo nas redações, com o objetivo de deixar o texto mastigado para o leitor e tornar estanque a informação dada ali. Como se não fosse interessante que, ao não compreender algo, ele fosse beber em outras fontes. Hoje, com a Internet, é facílimo, está ao alcance da vista de quase todo mundo. Outro aspecto é seguir ao pé da letra o que dizem as pesquisas na hora de confeccionar uma revista popular. Tomemos como exemplo a pesquisa feita por uma grande editora sobre “a mulher da classe C” ou “nova classe média”. Lá, ficamos sabendo que: a mulher da classe C vai consumir cada vez mais artigos de decoração e vai investir na reforma de casa; que ela gasta muito com beleza, sobretudo o cabelo; que está preocupada com a alimentação; e que quer ascender social e profissionalmente. É com base nestes números que a editora oferece o produto – a revista – ao mercado de anunciantes. Normal. Mas no que se transformam, para o leitor, estes dados? Preocupação com alimentação? Dietas amalucadas? A principal chamada de capa destas revistas é alguma coisa esdrúxula como: “perdi 30 kg com fibras naturais”, “sequei 22 quilos com cápsulas de centelha asiática”, “emagreci 27 kg com florais de Bach e colágeno”, “fiquei magra com a dieta da aveia” ou “perdi 20 quilos só comendo linhaça”. Pelo amor de Deus, quem é que vai passar o dia comendo linhaça? Estão confundindo a classe C com passarinho, só pode. Quer reformar a casa? Nada de dicas de decoração baratas e de bom gosto. O objetivo é ensinar como tomar empréstimo e comprar móveis em parcelas. Ou então alguma coisa “criativa” que ninguém vai fazer, tipo uma parede toda de filtros de café usados. Juro que li isso. A parte de ascensão profissional vem em matérias como “fiquei famosa vendendo bombons de chocolate feitos em casa” ou “lucro 2500 reais por mês com meus doces”. Falar das possibilidades de voltar a estudar, de ter uma carreira ou se especializar para ser promovido no trabalho? Nada. Dicas culturais de leitura, filmes, música, então, nem pensar. Cada vez que vejo pesquisas dizendo que a mídia impressa está em baixa penso nestas revistas. A internet oferece grátis à classe C um cardápio ainda pobre, mas bem mais farto. Será que a nova classe média quer realmente ler estas revistas? A vendagem delas é razoável, mas nada impressionante. São todas inspiradas nas revistas populares inglesas, cuja campeã é a “Take a Break”. A fórmula é a mesma de uma “Sou + Eu”: dietas, histórias reais de sucesso ou escabrosas e distribuição de prêmios. Além deste tipo de abordagem também fazem sucesso as publicações de fofocas de celebridades ou sobre programas de TV – aqui, as novelas. Sei que deve ser utopia, mas gostaria de ver publicações para a classe C que ensinassem as pessoas a se alimentar melhor, que mostrassem como a obesidade anda perigosa no Brasil porque se come mal. Atacando, inclusive, refrigerantes, redes de fast food e guloseimas, sem se preocupar em perder anunciantes. Que priorizassem não as dietas, mas a educação alimentar e a importância de fazer exercícios e de levar uma vida saudável. Gostaria de ver reportagens ensinando as mulheres da classe C a se sentirem bem com seu próprio cabelo, muitas vezes cacheado, em vez de simplesmente copiarem as famosas. Que mostrassem como é possível se vestir bem gastando pouco, sem se importar com marcas. Gostaria de ler reportagens nas revistas para a classe C alertando os pais para que vejam menos televisão e convivam mais com os filhos. Que falassem da necessidade de tirar as crianças do computador e de levá-las para passear ao ar livre. Que tivessem dicas de livros, notícias sobre o mundo, ciências, artes – é possível transformar tudo isso em informação acessível e não apenas para conhecedores, como se a cultura fosse patrimônio das classes A e B. Gostaria, enfim, de ver revistas populares que fossem feitas para ler de verdade, e que fizessem refletir. Mas a quem interessa que a classe C tenha suas próprias ideias? (Cynara Menezes, 15/07/2011, em: http://www.cartacapital.com.br/politica/o-que-quer-a-classe-c)
Das opções abaixo, a única que NÃO apresenta linguagem informal é
- AHoje, com a Internet, é facílimo, está ao alcance da vista de quase todo mundo. (linha 10)
- B[...] a editora oferece o produto – a revista – ao mercado de anunciantes. Normal. (linha 16)
- CEstão confundindo a classe C com passarinho, só pode. (linha 21)
- D[...] tipo uma parede toda de filtros de café usados. [...]. (linhas 23 e 24)
- EDicas culturais de leitura, filmes, música, então, nem pensar. (linha 27)
Você já respondeu questões neste aparelho. Crie sua conta grátis para guardar o histórico e refazer as que errou.
Resposta salva no seu histórico.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
A questão pede a única frase em que não há marcas de informalidade (linguagem coloquial, típica da fala do dia a dia). Vamos examinar cada trecho.
- Em (A), "facílimo" é superlativo formal e "ao alcance da vista de quase todo mundo" é uma construção comum. A única marca coloquial seria "quase todo mundo", expressão de uso corrente, o que torna a frase pouco segura como resposta.
- Em (B), "Normal." é uma frase nominal solta, curta, de tom falado, ao lado de travessões que dão ar de comentário oral. É informal.
- Em (C), "só pode" é expressão tipicamente oral, usada para fechar um raciocínio. É informal.
- Em (D), "tipo" no sentido de "como, por exemplo" é gíria/coloquialismo muito característico da fala. É informal.
- Em (E), "então" como reforço e "nem pensar" são marcas de oralidade. É informal.
Comparando, em (A) o vocabulário ("facílimo", "ao alcance da vista") é mais próximo do registro padrão, e "quase todo mundo" é a única expressão mais solta. Nas demais há marcas fortes e inequívocas de oralidade ("Normal.", "só pode", "tipo", "nem pensar"). Assim, a frase que menos apresenta linguagem informal, e que a banca considera a que não a apresenta, é a (A).
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- B"Normal." isolado, como comentário curto, é marca de oralidade.
- C"só pode" é expressão coloquial de fechamento de raciocínio.
- D"tipo" com valor de exemplo é coloquialismo típico da fala.
- E"então" enfático e "nem pensar" são expressões orais e informais.
Assunto: Norma-padrão, registros e adequação linguística.
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova
Fonte: ITA 2012 · Português. Prova oficial ↗