PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 23 (Português) do ITA 2012
Texto-base das questões 21 a 29 · Português
As questões de 21 a 29 referem-se ao seguinte texto:
Texto 1
Moradores de Higienópolis admitiram ao jornal Folha de S. Paulo que a abertura de uma estação de metrô na avenida Angélica traria “gente diferenciada” ao bairro. Não é difícil imaginar que alguns vizinhos do Morumbi compartilhem esse medo e prefiram o isolamento garantido com a inexistência de transporte público de massa por ali.
Mas à parte o gosto exacerbado dos paulistanos por levantar muros, erguer fortalezas e se refugiar em ambientes distantes do Brasil real, o poder público não fez a sua parte em desmentir que a chegada do transporte de massas não degrade a paisagem urbana.
Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, na Colômbia, e grande especialista em transporte coletivo, diz que não basta criar corredores de ônibus bem asfaltados e servidos por diversas linhas. Abrigos confortáveis, boa iluminação, calçamento, limpeza e paisagismo que circundam estações de metrô ou pontos de ônibus precisam mostrar o status que o transporte público tem em uma determinada cidade.
Se no entorno do ponto de ônibus, a calçada está esburacada, há sujeira e a escuridão afugenta pessoas à noite, é normal que moradores não queiram a chegada do transporte de massa.
A instalação de linhas de monotrilho ou de corredores de ônibus precisa vitaminar uma área, não destruí-la.
Quando as grades da Nove de Julho foram retiradas, a avenida ficou menos tétrica, quase bonita. Quando o corredor da Rebouças fez pontos muito modestos, que acumulam diversos ônibus sem dar vazão a desembarques, a imagem do engarrafamento e da bagunça vira um desastre de relações públicas.
Em Istambul, monotrilhos foram instalados no nível da rua, como os “trams” das cidades alemãs e suíças. Mesmo em uma cidade de 16 milhões de habitantes na Turquia, país emergente como o Brasil, houve cuidado com os abrigos feitos de vidro, com os bancos caprichados – em formato de livro – e com a iluminação. Restou menos espaço para os carros porque a idéia ali era tentar convencer na marra os motoristas a deixarem mais seus carros em casa e usarem o transporte público.
Se os monotrilhos do Morumbi, de fato, se parecerem com um Minhocão*, o Godzilla do centro de São Paulo, os moradores deveriam protestar, pedindo melhorias no projeto, detalhamento dos materiais, condições e impacto dos trilhos na paisagem urbana. Se forem como os antigos bondes, ótimo.
Mas se os moradores simplesmente recusarem qualquer ampliação do transporte público, que beneficiará diretamente os milhares de prestadores de serviço que precisam trabalhar na região do Morumbi, vai ser difícil acreditar que o problema deles não seja a gente diferenciada que precisa circular por São Paulo. (Raul Justes Lores. Folha de S. Paulo, 07/10/2010. Adaptado.)
(*) Elevado Presidente Costa e Silva, ou Minhocão, é uma via expressa que liga o Centro à Zona Oeste da cidade de São Paulo.
Leia os seguintes enunciados:
I. Partindo de um fato noticioso – a reação de moradores diante da intenção da Prefeitura de São Paulo em construir uma estação do metrô na Avenida Angélica –, o autor questiona a eficiência do transporte público na cidade.
II. Para o autor, a valorização do transporte coletivo urbano está atrelada a aspectos estruturais e arquitetônicos das estações de metrô e pontos de ônibus.
III. A informação sobre o número de habitantes da cidade de Istambul e a comparação do Brasil com a Turquia permitem que o leitor avalie a possibilidade de iniciativas para a melhoria do transporte coletivo em São Paulo.
Está correto o que se afirma apenas em
- AI e II.
- BI e III.
- CII.
- DII e III.
- EIII.
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Resolução comentada
Vamos testar cada enunciado contra o texto.
I. O fato noticioso é mesmo a reação dos moradores de Higienópolis. Mas o autor não questiona a eficiência do transporte público. Ele critica o preconceito dos moradores ("gente diferenciada") e a falha do poder público em mostrar que o transporte de massa não degrada o bairro. A tese trata de preconceito e de qualidade urbanística, não de eficiência. Incorreto.
II. Apoiando-se em Peñalosa, o autor diz que não bastam corredores asfaltados e muitas linhas. Abrigos confortáveis, iluminação, calçamento, limpeza e paisagismo mostram o status do transporte público na cidade. Esses são aspectos estruturais e arquitetônicos das estações e dos pontos. Correto.
III. O autor cita Istambul, uma cidade de 16 milhões de habitantes, num país emergente como o Brasil. Com isso, mostra que um lugar enorme e com realidade parecida com a nossa conseguiu cuidar do projeto (abrigos de vidro, bancos, iluminação). O leitor pode, então, avaliar se algo semelhante é viável em São Paulo. Correto.
São corretos apenas II e III.
Alternativa D.
Pegadinha: O item I começa com um fato verdadeiro (a reação dos moradores) e engana quem não percebe que a conclusão atribuída ao autor, a ineficiência do transporte, não está no texto.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AInclui o item I, que atribui ao autor um questionamento da eficiência do transporte, quando ele critica o preconceito e o descuido com o entorno das estações.
- BInclui o item I (incorreto) e deixa de fora o item II, que é correto.
- CReconhece o item II, mas ignora que o dado sobre Istambul e a comparação com a Turquia servem de parâmetro para São Paulo (item III).
- EReconhece o item III, mas omite o item II, que resume bem o argumento de Peñalosa.
Assuntos: Tese, ponto de vista e estrutura argumentativa, Estratégias e tipos de argumento.
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Fonte: ITA 2012 · Português. Prova oficial ↗