Questão 81 da FUVEST 2024

1ª fase

“As sociólogas, filósofas e ativistas feministas destacaram, com o conceito de ‘reprodução social’, algo que a teoria econômica ocultava: para que haja produção de bens e de serviços é necessário que as pessoas que os produzem sejam, por sua vez, produzidas. O trabalho da reprodução social, portanto, cria e repõe a condição primordial e necessária – a existência de pessoas que trabalham – para que a produção econômica possa continuar ocorrendo. Em grande medida, esse trabalho é relegado ao ambiente familiar e às mulheres: cuidado com os filhos, cuidado com doentes e idosos, preparação de alimentos, limpeza e arrumação da casa e outros. O trabalho de reprodução se opõe, socialmente, ao trabalho de produção; este está inserido numa economia organizada com base em empresas – nas fábricas, na agricultura, nos escritórios –, voltado para o mercado e é percebido como merecedor de contrapartida financeira: o salário. Assim, mesmo quando um trabalho da esfera da reprodução se realiza por meio de uma relação de emprego, se for realizado por mulheres, ele costuma ser mal pago e desfrutar de menor prestígio.”

ARRUZZA, Cinzia; BATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99%: um manifesto. São Paulo: Boitempo, 2019.

“A chamada ‘economia do cuidado’ é o conjunto de atividades não remuneradas, geralmente exercidas por mulheres, como a limpeza da casa, preparação de alimentos e os cuidados com crianças, idosos e doentes da família. Um pacote que vale 11% do PIB atual (...). Em valores, foram cerca de 634,3 bilhões de reais em 2015 [por exemplo]. (...) Contabilizar o valor dos afazeres domésticos no PIB do Brasil só se tornou possível a partir de 2001, quando o IBGE introduziu na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) a pergunta referente ao número de horas despendido pela população para executar essas atividades.”

Disponível em https://www.cartacapital.com.br/.

Nos textos apresentados, encontram-se dois conceitos, o de “reprodução social” e o de “economia do cuidado”. De acordo com as definições desses conceitos e com os dados indicados, qual das afirmações a seguir está correta?

  1. A
    Os conceitos de reprodução social e de economia do cuidado são contraditórios porque o primeiro se refere a todo trabalho doméstico e o segundo apenas ao trabalho doméstico pago e que é possível contabilizar.
  2. B
    Ambos os conceitos se referem a um tipo de trabalho cuja importância é socialmente reconhecida, fato que pode ser comprovado pela porcentagem expressiva que ele representava do PIB brasileiro no ano de 2015.
  3. C
    As definições de reprodução social e de economia do cuidado excluem, necessariamente, a possibilidade de que o Estado seja responsável por parte das tarefas envolvidas na reprodução das pessoas.
  4. D
    A contabilização no PIB dos valores dos afazeres domésticos no contexto da economia do cuidado abarca apenas uma parte da reprodução social, pois não inclui o trabalho doméstico remunerado e os trabalhos de reprodução executados fora do ambiente doméstico.
  5. E
    Os dados estimados sobre a participação das atividades domésticas não remuneradas no PIB do Brasil mostram que a reprodução social acontece apenas quando não há uma relação salarial entre quem executa e quem se beneficia desse tipo de trabalho.
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Resolução comentada

O primeiro texto define reprodução social como o trabalho que cria e repõe as pessoas que trabalham: cuidar de filhos, doentes e idosos, preparar alimentos, limpar a casa. Esse trabalho é feito em grande parte na família e por mulheres, mas o texto diz que ele também pode ocorrer numa relação de emprego ("mesmo quando... se realiza por meio de uma relação de emprego"), em geral mal pago.

O segundo texto define economia do cuidado de forma mais restrita: atividades não remuneradas, geralmente femininas, feitas dentro de casa. Foi isso que o IBGE passou a contabilizar no PIB (cerca de 11%, R$ 634,3 bilhões em 2015), a partir das horas declaradas na PNAD.

Assim, a economia do cuidado é um subconjunto da reprodução social. Ela deixa de fora o trabalho doméstico remunerado (empregadas, cuidadoras contratadas) e o trabalho de reprodução feito fora do lar (creches, escolas, hospitais, asilos).

Conferindo as alternativas: a (A) inverte as definições; a (B) erra porque os textos dizem que esse trabalho é desvalorizado; a (C) não tem apoio nos textos, que não excluem o Estado; a (E) contradiz o primeiro texto, que admite reprodução com salário. Só a (D) descreve corretamente a relação de parte e todo.

Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • ANão há contradição e as definições estão trocadas: a economia do cuidado é justamente o trabalho não remunerado, não o pago.
  • BOs textos dizem que o trabalho de reprodução é desvalorizado e mal pago; o percentual do PIB não prova reconhecimento social.
  • CAs definições não excluem o Estado; nada nos textos impede que ele assuma parte dessas tarefas.
  • EO primeiro texto afirma que a reprodução também ocorre em relações de emprego, então não acontece só sem salário.

Assuntos: reprodução social, economia do cuidado, trabalho e gênero.

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