Questão 27 da FUVEST 2022

1ª fase

Chega um momento em que a tensão eu/mundo se exprime mediante uma perspectiva crítica, imanente à escrita, o que torna o romance não mais uma variante literária da rotina social, mas o seu avesso; logo, o oposto do discurso ideológico do homem médio. O romancista “imitaria” a vida, sim, mas qual vida? Aquela cujo sentido dramático escapa a homens e mulheres entorpecidos ou automatizados por seus hábitos cotidianos. A vida como objeto de busca e construção, e não a vida como encadeamento de tempos vazios e inertes. Caso essa pobre vida-morte deva ser tematizada, ela aparecerá como tal, degradada, sem a aura positiva com que as palavras “realismo” e “realidade” são usadas nos discursos que fazem a apologia conformista da “vida como ela é”... A escrita da resistência, a narrativa atravessada pela tensão crítica, mostra, sem retórica nem alarde ideológico, que essa “vida como ela é” é, quase sempre, o ramerrão de um mecanismo alienante, precisamente o contrário da vida plena e digna de ser vivida.

É nesse sentido que se pode dizer que a narrativa descobre a vida verdadeira, e que esta abraça e transcende a vida real. A literatura, com ser ficção, resiste à mentira. É nesse horizonte que o espaço da literatura, considerado em geral como lugar da fantasia, pode ser o lugar da verdade mais exigente.

Alfredo Bosi. “Narrativa e resistência”. Adaptado.

O conceito de resistência, expresso pela tensão do indivíduo perante o mundo, adquire perspectiva crítica na escrita do romance quando o autor

  1. A
    rompe a superfície enganosa da realidade.
  2. B
    forja um realismo rente à vida mesquinha.
  3. C
    é neutro ao figurar a vacuidade do presente.
  4. D
    conserva o discurso positivo da ordem.
  5. E
    consegue sobrepor a fantasia à verdade.
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Resolução comentada

O texto de Bosi distingue dois tipos de "realismo". Um é a apologia conformista da "vida como ela é", que trata a rotina alienante como algo positivo. O outro é a escrita de resistência, que tem tensão crítica e mostra, sem retórica, que essa "vida como ela é" é o ramerrão de um mecanismo alienante.

A literatura crítica, portanto, não aceita a aparência cotidiana. Ela a atravessa e a desmascara, e assim descobre a "vida verdadeira", que "abraça e transcende a vida real". Por isso o texto diz que a literatura "resiste à mentira" e pode ser "o lugar da verdade mais exigente".

Conferindo as alternativas:

  1. A ideia de romper a superfície enganosa da realidade corresponde a desmascarar a mentira da "vida como ela é" e chegar à vida verdadeira.
  2. As demais alternativas ou defendem o realismo conformista, ou negam a perspectiva crítica, ou invertem a relação entre ficção e verdade.

Alternativa A.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • BA vida mesquinha pode ser tematizada, mas degradada e criticada, não com um realismo que se cole a ela e a aceite.
  • CA escrita de resistência tem tensão crítica; não é neutra ao figurar o vazio do presente.
  • DConservar o discurso positivo da ordem é a apologia conformista que o texto rejeita.
  • EO texto diz que a ficção resiste à mentira e pode ser o lugar da verdade; a fantasia não se sobrepõe a ela.

Assuntos: interpretação de texto, romance e crítica social.

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