Questão 66 da FUVEST 2019

1ª fase

TEXTOS PARA AS QUESTÕES 66 E 67

O povo que chupa o caju, a manga, o cambucá e a jabuticaba, pode falar uma língua com igual pronúncia e o mesmo espírito do povo que sorve o figo, a pera, o damasco e a nêspera?

José de Alencar. Bênção Paterna. Prefácio a Sonhos d’ouro.

A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela. Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome, outras remexe o uru de palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas da juçara com que tece a renda e as tintas de que matiza o algodão.

José de Alencar. Iracema.

Glossário:
“ará”: periquito; “uru”: cesto; “crautá”: espécie de bromélia; “juçara”: tipo de palmeira espinhosa.

Com base nos trechos acima, é adequado afirmar:

  1. A
    Para Alencar, a literatura brasileira deveria ser capaz de representar os valores nacionais com o mesmo espírito do europeu que sorve o figo, a pera, o damasco e a nêspera.
  2. B
    Ao discutir, no primeiro trecho, a importação de ideias e costumes, Alencar propõe uma literatura baseada no abrasileiramento da língua portuguesa, como se verifica no segundo trecho.
  3. C
    O contraste entre os verbos “chupar” e “sorver”, empregados no primeiro trecho, revela o rebaixamento de linguagem buscado pelo escritor em Iracema.
  4. D
    Em Iracema, a construção de uma literatura exótica, tal como se verifica no segundo trecho, pautou-se pela recusa de nossos elementos naturais.
  5. E
    Ambos os trechos são representativos da tendência escapista de nosso romantismo, na medida em que valorizam os elementos naturais em detrimento da realidade rotineira.
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Resolução comentada

No primeiro trecho, Alencar faz uma pergunta retórica: o povo que saboreia frutas tropicais (caju, manga, cambucá, jabuticaba) pode falar a mesma língua, com a mesma pronúncia e o mesmo "espírito", do povo que come frutas europeias (figo, pera, damasco, nêspera)? A resposta implícita é não. Para ele, a realidade natural e cultural do Brasil exige uma língua literária com feição própria, brasileira, e não uma cópia da língua de Portugal.

No trecho de Iracema, isso aparece na prática. A natureza local dá o vocabulário e as imagens: ará, uru, crautá, juçara. Esses termos indígenas e a flora brasileira entram na prosa, que fica diferente do português europeu.

Agora, as alternativas:

  1. A contradiz o trecho, pois Alencar diferencia os dois povos, e não os iguala.
  2. B une as duas ideias: a discussão sobre importar ideias e costumes leva à defesa de uma literatura baseada no abrasileiramento do português, e o segundo trecho mostra esse projeto realizado com palavras tupis e elementos locais.
  3. C erra porque "chupar" e "sorver" marcam a diferença entre os povos e não um rebaixamento da linguagem; Iracema é prosa poética e elaborada.
  4. D erra porque o trecho valoriza os elementos naturais, não os recusa.
  5. E erra porque o primeiro trecho trata de língua, não de fuga da realidade.

Alternativa B.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AInverte a ideia de Alencar, que contrapõe o espírito do povo brasileiro ao do europeu, em vez de igualá-los.
  • COs verbos marcam a diferença entre os povos, e não um rebaixamento de linguagem, que não existe em Iracema, de prosa poética elaborada.
  • DO trecho incorpora e valoriza elementos naturais brasileiros (ará, uru, juçara), não os recusa.
  • EO primeiro trecho trata da língua e da identidade nacional, não de escapismo; atribuir a ele essa tendência não se sustenta.

Assuntos: romantismo, José de Alencar, língua nacional.

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