Questão 64 da FUVEST 2019
I. Surge então a pergunta: se a fantasia funciona como realidade; se não conseguimos agir senão mutilando o nosso eu; se o que há de mais profundo em nós é no fim de contas a opinião dos outros; se estamos condenados a não atingir o que nos parece realmente valioso –, qual a diferença entre o bem e o mal, o justo e o injusto, o certo e o errado? O autor passou a vida a ilustrar esta pergunta, que é modulada de maneira exemplar no primeiro e mais conhecido dos seus grandes romances de maturidade.
II. É preciso todavia lembrar que essa ligação com o problema geográfico e social só adquire significado pleno, isto é, só atua sobre o leitor, graças à elevada qualidade artística do livro. O seu autor soube transpor o ritmo mesológico para a própria estrutura da narrativa, mobilizando recursos que a fazem parecer movida pela mesma fatalidade sem saída. (...) Da consciência mortiça da personagem podem emergir os transes periódicos em que se estorce o homem esmagado pela paisagem e pelos outros homens.
Nos fragmentos I e II, aqui adaptados, o crítico Antonio Candido avalia duas obras literárias, que são, respectivamente,
- AA Relíquia e Sagarana.
- BO Cortiço e Iracema.
- CSagarana e O Cortiço.
- DMayombe e Minha Vida de Menina.
- EMemórias Póstumas de Brás Cubas e Vidas Secas.
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Resolução comentada
Cada fragmento traz pistas que identificam a obra.
Fragmento I. A pergunta sobre a diferença entre bem e mal, justo e injusto, quando "a fantasia funciona como realidade" e "o que há de mais profundo em nós é a opinião dos outros", é a crise moral típica de Machado de Assis. Candido fala do "primeiro e mais conhecido dos seus grandes romances de maturidade". Esse romance é Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), que inaugura o Realismo no Brasil. Nele, a relatividade dos valores morais, a aparência social e a vaidade são temas centrais.
Fragmento II. Fala de "ligação com o problema geográfico e social", de "ritmo mesológico" (ou seja, do meio físico) transposto para a estrutura da narrativa, de "fatalidade sem saída", de "consciência mortiça da personagem" e do "homem esmagado pela paisagem e pelos outros homens". Isso descreve Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos. A seca, a miséria e a linguagem seca e fragmentada, em capítulos quase独立 como quadros, reproduzem o ciclo sem saída de Fabiano e sua família.
Assim, a ordem é: I, Memórias Póstumas de Brás Cubas; II, Vidas Secas.
Alternativa E.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AA Relíquia é de Eça de Queirós e Sagarana é de Guimarães Rosa; nenhuma corresponde à crise moral machadiana nem ao homem esmagado pela seca.
- BO Cortiço é naturalismo determinista e Iracema é romance indianista romântico; nenhum se ajusta às descrições.
- CSagarana é um livro de contos regionalistas, e O Cortiço não tem a consciência mortiça nem a paisagem que esmaga a personagem.
- DMayombe (Pepetela) trata da guerrilha angolana e Minha Vida de Menina é diário de memórias; não combinam com os fragmentos.
Assuntos: Machado de Assis, Graciliano Ramos, crítica literária.
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