Questão 18 da FUVEST 2017

1ª fase

Considere as imagens e o texto, para responder às questões 17 e 18.

Considere as imagens e o texto, para responder às questões 17 e 18.

Fotografia em preto e branco da fachada da igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, em estilo barroco/rococó mineiro, com torres cilíndricas e frontispício esculpido.
Fotografia em preto e branco do interior da igreja, destacando o altar ricamente decorado com talha dourada e estátuas religiosas.

Fachada da igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto.

II / São Francisco de Assis*

Senhor, não mereço isto.
Não creio em vós para vos amar.
Trouxestes-me a São Francisco
e me fazeis vosso escravo.

Não entrarei, senhor, no templo,
seu frontispício me basta.
Vossas flores e querubins
são matéria de muito amar.

Dai-me, senhor, a só beleza
destes ornatos. E não a alma.
Pressente-se dor de homem,
paralela à das cinco chagas.

Um aspecto do poema em que se manifesta a persistência de um valor afirmado também no Modernismo da década de 1920 é o

  1. A
    destaque dado às características regionais.
  2. B
    uso da variante oral-popular da linguagem.
  3. C
    elogio do sincretismo religioso.
  4. D
    interesse pelo passado da arte no Brasil.
  5. E
    delineamento do poema em feitio de oração.
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Resolução comentada

O poema é de Carlos Drummond de Andrade ("Santa Igreja de São Francisco de Assis", do ciclo de Ouro Preto em Claro enigma ou Alguma poesia/Brejo das Almas, conforme a edição). O eu lírico está diante da igreja barroca de Ouro Preto, obra de Aleijadinho, e se rende à beleza dos ornatos ("flores e querubins"), mesmo sem fé.

A questão pede um valor do Modernismo de 1920 que persiste no poema. Vamos testar cada ideia:

  1. Regionalismo: o poema não destaca traços regionais, e sim uma reflexão pessoal sobre fé e beleza.
  2. Linguagem oral-popular: o vocabulário é culto e solene ("vós", "trouxestes-me", "fazeis"), o oposto da fala coloquial.
  3. Sincretismo religioso: não há mistura de tradições, só o cristianismo.
  4. Passado da arte no Brasil: os modernistas, sobretudo a partir da viagem a Minas em 1924 (Mário de Andrade, Oswald, Blaise Cendrars), redescobriram o barroco mineiro e Aleijadinho como raiz da arte nacional. O poema exalta justamente essa arte colonial, aparecendo nas imagens da fachada e do altar.
  5. Forma de oração: o poema se dirige a Deus ("Senhor"), mas isso é recurso de composição, não um valor modernista. A oração aqui é até negada ("Não creio em vós").

Portanto, o valor que persiste é o interesse pela arte do passado brasileiro, a valorização do barroco mineiro.

Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO poema não trata de traços regionais, mas de uma experiência individual diante da arte e da fé.
  • BA linguagem é culta e solene ("vós", "trouxestes-me"), não oral-popular.
  • CNão há mistura de crenças; só aparece o universo cristão, e o eu lírico até duvida dele.
  • EO tom de invocação existe, mas não é valor modernista e a própria fé é negada no texto.

Assuntos: modernismo, barroco mineiro, poesia de Drummond.

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