Questão 77 da FUVEST 2016
Assim como o camponês, o mercador está a princípio submetido, na sua atividade profissional, ao tempo meteorológico, ao ciclo das estações, à imprevisibilidade das intempéries e dos cataclismos naturais. Como, durante muito tempo, não houve nesse domínio senão necessidade de submissão à ordem da natureza e de Deus, o mercador só teve como meio de ação as preces e as práticas supersticiosas. Mas, quando se organiza uma rede comercial, o tempo se torna objeto de medida. A duração de uma viagem por mar ou por terra, ou de um lugar para outro, o problema dos preços que, no curso de uma mesma operação comercial, mais ainda quando o circuito se complica, sobem ou descem – tudo isso se impõe cada vez mais à sua atenção. Mudança também importante: o mercador descobre o preço do tempo no mesmo momento em que ele explora o espaço, pois para ele a duração essencial é aquela de um trajeto.
Jacques Le Goff. Para uma outra Idade Média.
Petrópolis: Vozes, 2013. Adaptado.
O texto associa a mudança da percepção do tempo pelos mercadores medievais ao
- Arespeito estrito aos princípios do livre-comércio, que determinavam a obediência às regras internacionais de circulação de mercadorias.
- Bcrescimento das relações mercantis, que passaram a envolver territórios mais amplos e distâncias mais longas.
- Caumento da navegação oceânica, que permitiu o estabelecimento de relações comerciais regulares com a América.
- Davanço das superstições na Europa ocidental, que se difundiram a partir de contatos com povos do leste desse continente e da Ásia.
- Eaparecimento dos relógios, que foram inventados para calcular a duração das viagens ultramarinas.
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Resolução comentada
O texto contrasta dois momentos do mercador. No primeiro, ele depende do clima e das intempéries, como o camponês, e só pode recorrer a preces e superstições. No segundo, "quando se organiza uma rede comercial, o tempo se torna objeto de medida".
O próprio texto indica o que muda. Com a rede comercial, o mercador passa a se preocupar com:
- a duração das viagens, por mar ou por terra;
- a variação dos preços ao longo de uma mesma operação, que fica mais complexa quando o circuito se amplia;
- o espaço, pois ele "explora o espaço" e a "duração essencial é aquela de um trajeto".
Assim, a nova percepção do tempo decorre da expansão do comércio medieval, que ligava regiões cada vez mais amplas e distantes. Medir o tempo passa a ser uma necessidade prática, porque tempo de trajeto e variação de preços significam lucro ou prejuízo.
O texto não cita livre-comércio, América, difusão de superstições nem relógios. Só a alternativa B corresponde à relação que ele estabelece: mais relações mercantis, territórios maiores e distâncias mais longas levam a medir o tempo.
Alternativa B.
Por que as outras alternativas estão erradas
- Alivre-comércio e regras internacionais de circulação são conceitos anacrônicos para a Idade Média e não aparecem no texto.
- Ca navegação oceânica para a América é posterior ao período tratado e o texto fala de rotas por mar ou terra na Europa medieval.
- Do texto diz que as superstições eram o recurso anterior à medida do tempo, não a causa da mudança, e não fala de difusão vinda do Oriente.
- Eo texto não menciona relógios nem sua invenção; a mudança de percepção é explicada pela organização das redes comerciais.
Assuntos: comércio medieval, interpretação de texto histórico, percepção do tempo.
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