Questão 49 da FUVEST 2016
TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 48 A 50
A ARMA DA PROPAGANDA
O governo Médici não se limitou à repressão. Distinguiu claramente entre um setor significativo mas minoritário da sociedade, adversário do regime, e a massa da população que vivia um dia a dia de alguma esperança nesses anos de prosperidade econômica. A repressão acabou com o primeiro setor, enquanto a propaganda encarregou-se de, pelo menos, neutralizar gradualmente o segundo. Para alcançar este último objetivo, o governo contou com o grande avanço das telecomunicações no país, após 1964. As facilidades de crédito pessoal permitiram a expansão do número de residências que possuíam televisão: em 1960, apenas 9,5% das residências urbanas tinham televisão; em 1970, a porcentagem chegava a 40%. Por essa época, beneficiada pelo apoio do governo, de quem se transformou em porta-voz, a TV Globo expandiu-se até se tornar rede nacional e alcançar praticamente o controle do setor. A propaganda governamental passou a ter um canal de expressão como nunca existira na história do país. A promoção do “Brasil grande potência” foi realizada a partir da Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP), criada no governo Costa e Silva, mas que não chegou a ter importância nesse governo. Foi a época do “Ninguém segura este país”, da marchinha Prá Frente, Brasil, que embalou a grande vitória brasileira na Copa do Mundo de 1970.
Boris Fausto, História do Brasil. Adaptado.
A estratégia de dominação empregada pelo governo Médici, tal como descrita no texto, assemelha-se, sobretudo, à seguinte recomendação feita ao príncipe – ou ao governante – por um célebre pensador da política:
- A“Deve o príncipe fazer-se temer, de maneira que, se não se fizer amado, pelo menos evite o ódio, pois é fácil ser ao mesmo tempo temido e não odiado”.
- B“O mal que se tiver que fazer, deve o príncipe fazê-lo de uma só vez; o bem, deve fazê-lo aos poucos (...)”.
- C“Não se pode deixar ao tempo o encargo de resolver todas as coisas, pois o tempo tudo leva adiante e pode transformar o bem em mal e o mal em bem”.
- D“Engana-se quem acredita que novos benefícios podem fazer as grandes personagens esquecerem as antigas injúrias (...)”.
- E“Deve o príncipe, sobretudo, não tocar na propriedade alheia, porque os homens esquecem mais depressa a morte do pai que a perda do patrimônio”.
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Resolução comentada
A comparação se apoia na combinação de repressão concentrada e benefícios apresentados gradualmente. No texto, o governo Médici tratou de maneira diferente dois grupos: os adversários do regime e a maior parte da população.
Contra os opositores, empregou a repressão, que, segundo o autor, “acabou com o primeiro setor”. Para a maioria da população, utilizou a propaganda, encarregada de “neutralizar gradualmente o segundo”. A expansão da televisão e a divulgação da prosperidade econômica ajudavam a construir uma imagem positiva do governo.
Essa estratégia se aproxima da recomendação de Maquiavel, autor de O príncipe: realizar o mal de uma só vez e distribuir o bem aos poucos. A lógica é concentrar as medidas violentas, evitando renovar continuamente o ressentimento, e prolongar os efeitos favoráveis dos benefícios.
Isso não significa que a propaganda fosse um benefício real: ela apresentava o governo como responsável pelo progresso e alimentava expectativas positivas. A correspondência decisiva está entre a repressão aos adversários e a conquista gradual da população.
Alternativa B.
Por que as outras alternativas estão erradas
- APrioriza ser temido sem despertar ódio, e não a combinação entre repressão concentrada e conquista gradual da população.
- CTrata dos riscos de deixar decisões ao tempo, não da estratégia de repressão e propaganda.
- DDiscute a dificuldade de apagar antigas ofensas com novos benefícios, sobretudo entre grandes personagens.
- ERecomenda preservar a propriedade dos governados, tema que não fundamenta a estratégia descrita.
Assuntos: ditadura militar, maquiavel, propaganda política.
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