Questão 30 da FUVEST 2015

1ª fase

TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 29 A 31

Capítulo CVII

Bilhete

“Não houve nada, mas ele suspeita alguma cousa; está muito sério e não fala; agora saiu. Sorriu uma vez somente, para Nhonhô, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. Não me tratou mal nem bem. Não sei o que vai acontecer; Deus queira que isto passe. Muita cautela, por ora, muita cautela.”

Capítulo CVIII

Que se não entende

Eis aí o drama, eis aí a ponta da orelha trágica de Shakespeare. Esse retalhinho de papel, garatujado em partes, machucado das mãos, era um documento de análise, que eu não farei neste capítulo, nem no outro, nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza, a perspicácia e o ânimo dessas poucas linhas traçadas à pressa; e por trás delas a tempestade de outro cérebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita, porque tem de resolver-se na lama, ou no sangue, ou nas lágrimas?

Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.

Ao comentar o bilhete de Virgília, o narrador se vale, principalmente, do seguinte recurso retórico:

  1. A
    Hipérbato: transposição ou inversão da ordem natural das palavras de uma oração, para efeito estilístico.
  2. B
    Hipérbole: ênfase expressiva resultante do exagero da significação linguística.
  3. C
    Preterição: figura pela qual se finge não querer falar de coisas sobre as quais se está, todavia, falando.
  4. D
    Sinédoque: figura que consiste em tomar a parte pelo todo, o todo pela parte; o gênero pela espécie, a espécie pelo gênero; o singular pelo plural, o plural pelo singular etc.
  5. E
    Eufemismo: palavra, locução ou acepção mais agradável, empregada em lugar de outra menos agradável ou grosseira.
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Resolução comentada

O ponto central é saber o que o narrador faz no capítulo CVIII ao comentar o bilhete de Virgília.

A preterição é a figura em que o falante declara que não vai tratar de um assunto, mas acaba tratando dele. Ela aparece quando alguém diz, por exemplo, "não vou falar dos defeitos dele" e em seguida os enumera.

Veja o que Brás Cubas faz:

  1. Ele afirma que o bilhete "era um documento de análise, que eu não farei neste capítulo, nem no outro, nem talvez em todo o resto do livro". Ou seja, declara que não vai analisá-lo.
  2. Logo depois, na pergunta retórica, ele analisa o bilhete: destaca "a frieza, a perspicácia e o ânimo" das linhas e "a tempestade de outro cérebro, a raiva dissimulada, o desespero que se constrange e medita".
  3. O narrador diz que deixa a análise ao leitor, mas a faz ele mesmo. É isso que define a preterição: negar-se a comentar enquanto comenta.

Não há exagero evidente, troca de parte pelo todo, suavização de algo desagradável nem inversão sintática que seja o recurso dominante do trecho.

Alternativa C.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO hipérbato (inversão da ordem das palavras) não é o recurso principal do comentário do narrador.
  • BNão há exagero de significação; o narrador descreve a tensão de Virgília e de Lúcio sem hipérbole.
  • DNão há tomada da parte pelo todo; "retalhinho de papel" é só diminutivo referindo-se ao próprio bilhete.
  • EO narrador não substitui termos desagradáveis por outros mais suaves; fala até em "lama" e "sangue".

Assuntos: figuras de linguagem, preterição, Machado de Assis.

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