Questão 78 da FUVEST 2014
TEXTO PARA AS QUESTÕES 77 E 78
A civilização “pós-moderna” culminou em um progresso inegável, que não foi percebido antecipadamente, em sua inteireza. Ao mesmo tempo, sob o “mau uso” da ciência, da tecnologia e da capacidade de invenção nos precipitou na miséria moral inexorável. Os que condenam a ciência, a tecnologia e a invenção criativa por essa miséria ignoram os desafios que explodiram com o capitalismo monopolista de sua terceira fase.
Em páginas secas premonitórias, E. Mandel* apontara tais riscos. O “livre jogo do mercado” (que não é e nunca foi “livre”) rasgou o ventre das vítimas: milhões de seres humanos nos países ricos e uma carrada maior de milhões nos países pobres. O centro acabou fabricando a sua periferia intrínseca e apossou-se, como não sucedeu nem sob o regime colonial direto, das outras periferias externas, que abrangem quase todo o “resto do mundo”.
Florestan Fernandes, Folha de S. Paulo, 27/12/1993.
(*) Ernest Ezra Mandel (1923-1995): economista e militante político belga.
O emprego de aspas em uma dada expressão pode servir, inclusive, para indicar que ela
I. foi utilizada pelo autor com algum tipo de restrição;
II. pertence ao jargão de uma determinada área do conhecimento;
III. contém sentido pejorativo, não assumido pelo autor.
Considere as seguintes ocorrências de emprego de aspas presentes no texto:
A. “pós-moderna” (L. 1);
B. “mau uso” (L. 3);
C. “livre jogo do mercado” (L. 10);
D. “livre” (L. 11);
E. “resto do mundo” (L. 16).
As modalidades I, II e III de uso de aspas, elencadas acima, verificam-se, respectivamente, em
- AA, C e E.
- BB, C e D.
- CC, D e E.
- DA, B e E.
- EB, D e A.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
Para cada modalidade, procure a expressão entre aspas cujo uso combina com ela.
I. Restrição. O autor usa a expressão, mas com reservas. "Pós-moderna" (A) é o caso: ele aceita o termo para designar a civilização atual, mas sem endossá-lo por completo, como se dissesse "a chamada pós-moderna". Em "mau uso" (B) o autor não recusa a expressão, e o sentido não é de restrição.
II. Jargão. "Livre jogo do mercado" (C) é fórmula típica do vocabulário da economia e do liberalismo. As aspas marcam que ela vem desse campo do conhecimento.
III. Sentido pejorativo não assumido. Aqui o autor reproduz uma expressão de outros, carregada de desvalor, e se distancia dela. "Resto do mundo" (E) é assim: nomeia, do ponto de vista do centro, tudo o que fica fora dele, como se fosse um resto, um resíduo. O autor não adota essa visão.
É preciso conferir também "livre" (D). Nela o autor nega o termo ("que não é e nunca foi livre"), o que é ironia ou contestação, e não se encaixa nas três modalidades. "Mau uso" (B) também é ironia, pois é o modo de falar dos que atribuem a miséria ao mau uso e não ao sistema.
Portanto, I = A, II = C, III = E.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- B"mau uso" e "livre" expressam ironia ou contestação do autor, e "livre jogo do mercado" é jargão, não restrição; a sequência não corresponde.
- Ccomeça por "livre jogo do mercado" como restrição, mas esse é jargão econômico, e "livre" é negação irônica, não jargão.
- D"mau uso" não é restrição de termo aceito e "resto do mundo" não é jargão; a ordem está trocada.
- E"mau uso" não indica restrição, "livre" não é jargão e "pós-moderna" não é pejorativa.
Assuntos: uso de aspas, interpretação de texto.
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova