Questão 22 da FUVEST 2010

1ª fase

Texto para as questões de 22 a 25

Desde pequeno, tive tendência para personificar as coisas. Tia Tula, que achava que mormaço fazia mal, sempre gritava: “Vem pra dentro, menino, olha o mormaço!” Mas eu ouvia o mormaço com M maiúsculo. Mormaço, para mim, era um velho que pegava crianças! Ia pra dentro logo. E ainda hoje, quando leio que alguém se viu perseguido pelo clamor público, vejo com estes olhos o Sr. Clamor Público, magro, arquejante, de preto, brandindo um guarda-chuva, com um gogó protuberante que se abaixa e levanta no excitamento da perseguição. E já estava devidamente grandezinho, pois devia contar uns trinta anos, quando me fui, com um grupo de colegas, a ver o lançamento da pedra fundamental da ponte Uruguaiana-Libres, ocasião de grandes solenidades, com os presidentes Justo e Getúlio, e gente muita, tanto assim que fomos alojados os do meu grupo num casarão que creio fosse a Prefeitura, com os demais jornalistas do Brasil e Argentina. Era como um alojamento de quartel, com breve espaço entre as camas e todas as portas e janelas abertas, tudo com os alegres incômodos e duvidosos encantos de uma coletividade democrática. Pois lá pelas tantas da noite, como eu pressentisse, em meu entredormir, um vulto junto à minha cama, sentei-me estremunhado* e olhei atônito para um tipo de chiru*, ali parado, de bigodes caídos, pala pendente e chapéu descido sobre os olhos. Diante da minha muda interrogação, ele resolveu explicar-se, com a devida calma: — Pois é! Não vê que eu sou o sereno...

Mário Quintana, As cem melhores crônicas brasileiras.

*Glossário:
estremunhado: mal acordado.
chiru: que ou aquele que tem pele morena, traços acaboclados (regionalismo: Sul do Brasil).

No início do texto, o autor declara sua “tendência para personificar as coisas”. Tal tendência se manifesta na personificação dos seguintes elementos:

  1. A
    Tia Tula, Justo e Getúlio.
  2. B
    mormaço, clamor público, sereno.
  3. C
    magro, arquejante, preto.
  4. D
    colegas, jornalistas, presidentes.
  5. E
    vulto, chiru, crianças.
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Resolução comentada

Personificar (ou prosopopeia) é dar características, ações ou forma humana a algo que não é humano, como ideias, fenômenos da natureza ou coisas.

É preciso achar no texto o que não é humano, mas aparece como pessoa:

  1. Mormaço: fenômeno climático que, para o menino, vira "um velho que pegava crianças", com M maiúsculo, como nome próprio.
  2. Clamor público: expressão abstrata que o autor imagina como o "Sr. Clamor Público", magro, arquejante, de preto, com guarda-chuva e gogó protuberante.
  3. Sereno: a umidade da noite aparece como um homem de bigodes caídos, pala e chapéu, que diz: "Eu sou o sereno".

Os três casos têm a mesma estrutura: um elemento não humano ganha corpo, roupa e fala de gente.

As demais alternativas trazem pessoas reais, como Tia Tula, Justo, Getúlio, colegas, jornalistas e presidentes. Trazem também adjetivos (magro, arquejante, preto), que são características e não seres personificados. Outra alternativa mistura o vulto e o chiru com as crianças, que são humanos de fato.

Portanto, os elementos personificados são mormaço, clamor público e sereno.

Alternativa B.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • ATia Tula, Justo e Getúlio são pessoas reais, não elementos personificados.
  • CMagro, arquejante e preto são adjetivos que descrevem o Sr. Clamor Público, não os seres personificados.
  • DColegas, jornalistas e presidentes são pessoas de verdade, então não há personificação.
  • EVulto, chiru e crianças são seres humanos; nenhum é coisa tratada como gente.

Assuntos: personificação, interpretação de texto, crônica.

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