Questão 46 da FUVEST 2008
Texto para as questões 46 e 47
No início do século XVI, Maquiavel escreveu O Príncipe – uma célebre análise do poder político, apresentada sob a forma de lições, dirigidas ao príncipe Lorenzo de Médicis. Assim justificou Maquiavel o caráter professoral do texto:
Não quero que se repute presunção o fato de um homem de baixo e ínfimo estado discorrer e regular sobre o governo dos príncipes; pois assim como os [cartógrafos] que desenham os contornos dos países se colocam na planície para considerar a natureza dos montes, e para considerar a das planícies ascendem aos montes, assim também, para conhecer bem a natureza dos povos, é necessário ser príncipe, e para conhecer a dos príncipes é necessário ser do povo.
Tradução de Lívio Xavier, adaptada.
Ao justificar a autoridade com que pretende ensinar um príncipe a governar, Maquiavel compara sua missão à de um cartógrafo para demonstrar que
- Ao poder político deve ser analisado tanto do ponto de vista de quem o exerce quanto do de quem a ele está submetido.
- Bé necessário e vantajoso que tanto o príncipe como o súdito exerçam alternadamente a autoridade do governante.
- Cum pensador, ao contrário do que ocorre com um cartógrafo, não precisa mudar de perspectiva para situar posições complementares.
- Das formas do poder político variam, conforme sejam exercidas por representantes do povo ou por membros da aristocracia.
- Etanto o governante como o governado, para bem compreenderem o exercício do poder, devem restringir-se a seus respectivos papéis.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
Maquiavel usa uma analogia: o cartógrafo, para desenhar o relevo, precisa mudar de posição. Da planície, ele enxerga bem a natureza dos montes; do alto do monte, enxerga bem a das planícies. Cada ponto de vista revela o que o outro esconde.
Depois ele aplica a imagem à política:
- Para conhecer a natureza dos povos, é preciso ser príncipe (ver do alto).
- Para conhecer a natureza dos príncipes, é preciso ser do povo (ver de baixo).
Ele mesmo se diz de "baixo e ínfimo estado", e por isso justifica que, vindo do povo, pode discorrer sobre o governo dos príncipes. A ideia central é que o poder só é bem entendido quando se combinam as duas perspectivas: a de quem governa e a de quem é governado.
É isso que diz a alternativa A. As demais atribuem a Maquiavel ideias que o trecho não traz: revezamento no governo, formas de poder segundo o regime, ou limitação de cada um ao seu papel, que é justamente o oposto da mudança de ponto de vista defendida na comparação.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BConfunde conhecer o ponto de vista do outro com exercer alternadamente o poder, o que o texto não propõe.
- CInverte a analogia: o pensador, como o cartógrafo, precisa sim mudar de perspectiva.
- DO texto não trata de formas de governo nem de representantes do povo versus aristocracia.
- EDiz o contrário do texto, que exige sair do próprio lugar para compreender o outro.
Assuntos: Maquiavel, perspectiva e analogia, interpretação de texto.
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova