Questão 70 da FUVEST 2007

1ª fase

Texto para as questões 70 e 71

Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente. E toda essa adorável paz do céu, realmente celestial, e dos campos, onde cada folhinha conservava uma quietação contemplativa, na luz docemente desmaiada, pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava tão profundamente Jacinto, que eu o senti, no silêncio em que caíramos, suspirar de puro alívio.

Depois, muito gravemente:
— Tu dizes que na Natureza não há pensamento...
— Outra vez! Olha que maçada! Eu...
— Mas é por estar nela suprimido o pensamento que lhe está poupado o sofrimento! Nós, desgraçados, não podemos suprimir o pensamento, mas certamente o podemos disciplinar e impedir que ele se estonteie e se esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se realizam, aspirando a certezas que nunca se atingem!... E é o que aconselham estas colinas e estas árvores à nossa alma, que vela e se agita — que viva na paz de um sonho vago e nada apeteça, nada tema, contra nada se insurja, e deixe o mundo rolar, não esperando dele senão um rumor de harmonia, que a embale e lhe favoreça o dormir dentro da mão de Deus. Hem, não te parece, Zé Fernandes?
— Talvez. Mas é necessário então viver num mosteiro, com o temperamento de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de certos Jacintos...

Eça de Queirós, A cidade e as serras.

Considerado no contexto de A cidade e as serras, o diálogo presente no excerto revela que, nesse romance de Eça de Queirós, o elogio da natureza e da vida rural

  1. A
    indica que o escritor, em sua última fase, abandonara o Realismo em favor do Naturalismo, privilegiando, de certo modo, a observação da natureza em detrimento da crítica social.
  2. B
    demonstra que a consciência ecológica do escritor já era desenvolvida o bastante para fazê-lo rejeitar, ao longo de toda a narrativa, as intervenções humanas no meio natural.
  3. C
    guarda aspectos conservadores, predominantemente voltados para a estabilidade social, embora o escritor mantenha, em certa medida, a prática da ironia que o caracteriza.
  4. D
    serve de pretexto para que o escritor critique, sob certos aspectos, os efeitos da revolução industrial e da urbanização acelerada que se haviam processado em Portugal nos primeiros anos do Século XIX.
  5. E
    veicula uma sátira radical da religião, embora o escritor simule conservar, até certo ponto, a veneração pela Igreja Católica que manifestara em seus primeiros romances.
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Resolução comentada

O trecho mostra Jacinto, já em Tormes, exaltando a paz da natureza: para ele, o pensamento é fonte de sofrimento, e a alma deveria viver "na paz de um sonho vago", sem desejar, temer ou se insurgir, deixando "o mundo rolar". Esse ideal é de acomodação, de quietude e de aceitação da ordem das coisas, ou seja, tem um tom conservador.

Zé Fernandes, porém, responde com ironia: só se poderia viver assim num mosteiro, com o temperamento de S. Bruno, ou tendo "cento e quarenta contos de renda" e o "desplante" de certos Jacintos. Ele lembra que essa vida serena depende de riqueza, e sorri do entusiasmo do amigo, que antes vivia de luxo e tecnologia na cidade. Logo, o narrador mantém a ironia típica de Eça.

Confronte com as alternativas:

  1. A: o romance é realista, com crítica social preservada, e não naturalista.
  2. B: não há consciência ecológica nem rejeição de toda intervenção humana.
  3. D: a urbanização criticada é a de fins do século XIX, não dos primeiros anos.
  4. E: o trecho não satiriza radicalmente a religião.
  5. C: combina o aspecto conservador (estabilidade, paz, não se insurgir) com a ironia que permanece.

Alternativa C.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO romance continua realista e mantém a crítica social; não há abandono do Realismo pelo Naturalismo.
  • BAtribui ao texto uma consciência ecológica moderna e uma rejeição total das intervenções humanas que não aparecem.
  • DErra a época: a urbanização acelerada é do fim do século XIX, não dos primeiros anos.
  • EO trecho não faz sátira radical da religião; a menção a Deus e ao mosteiro é apenas parte do ideal de quietude.

Assuntos: Eça de Queirós, A cidade e as serras, ironia no Realismo.

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