Questão 68 da FUVEST 2007
Texto para as questões 68 e 69
Das vãs sutilezas
Os homens recorrem por vezes a sutilezas fúteis e vãs para atrair nossa atenção. (...) Aprovo a atitude daquele personagem a quem apresentaram um homem que com tamanha habilidade atirava um grão de alpiste que o fazia passar pelo buraco de uma agulha sem jamais errar o golpe. Tendo pedido ao outro que lhe desse uma recompensa por essa habilidade excepcional, atendeu o solicitado, de maneira prazenteira e justa a meu ver, mandando entregar-lhe três medidas de alpiste a fim de que pudesse continuar a exercer tão nobre arte. É prova irrefutável da fraqueza de nosso julgamento apaixonarmo-nos pelas coisas só porque são raras e inéditas, ou ainda porque apresentam alguma dificuldade, muito embora não sejam nem boas nem úteis em si.
Montaigne, Ensaios.
O texto revela, em seu desenvolvimento, a seguinte estrutura:
- Aformulação de uma tese; ilustração dessa tese por meio de uma narrativa; reiteração e expansão da tese inicial.
- Bformulação de uma tese; refutação dessa tese por meio de uma narrativa; formulação de uma nova tese, inspirada pela narrativa.
- Cdesenvolvimento de uma narrativa; formulação de tese inspirada nos fatos dessa narrativa; demonstração dessa tese.
- Dsegmento narrativo introdutório; desenvolvimento da narrativa; formulação de uma hipótese inspirada nos fatos narrados.
- Esegmento dissertativo introdutório; desenvolvimento de uma descrição; rejeição da tese introdutória.
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Resolução comentada
Para achar a estrutura, veja o que cada parte do texto faz.
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Abertura: "Os homens recorrem por vezes a sutilezas fúteis e vãs para atrair nossa atenção." É uma afirmação geral, uma tese, que o título "Das vãs sutilezas" já anuncia.
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Meio: Montaigne conta a história do homem que atirava grãos de alpiste por um buraco de agulha e recebeu como recompensa três medidas de alpiste. É uma narrativa e serve de exemplo. O alpiste dado de prêmio mostra que a habilidade é inútil, então o caso confirma a tese, não a contradiz.
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Final: "É prova irrefutável da fraqueza de nosso julgamento apaixonarmo-nos pelas coisas só porque são raras e inéditas (...) muito embora não sejam nem boas nem úteis em si." Aqui ele retoma a ideia inicial, a admiração por sutilezas vãs, e a amplia. Antes falava de quem se exibe com futilidades. Agora fala da nossa tendência de admirar o raro e o difícil, mesmo quando é inútil.
A sequência é: tese, ilustração por narrativa, reiteração e ampliação da tese. Isso corresponde à alternativa A.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BA narrativa não refuta a tese inicial, ela a confirma, e a conclusão não é uma tese nova.
- CO texto não começa pela narrativa, e sim por uma afirmação geral sobre as sutilezas vãs.
- DO início não é narrativo, e o final não é uma hipótese, e sim uma afirmação categórica ("prova irrefutável").
- EO trecho do meio é uma narrativa, não uma descrição, e a tese inicial não é rejeitada.
Assuntos: estrutura do texto dissertativo, interpretação de texto.
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