PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 4 da FUVEST 2006
Texto para as questões de 01 a 06
Ele se aproximou e com voz cantante de nordestino que a emocionou, perguntou-lhe:
— E se me desculpe, senhorinha, posso convidar a passear?
— Sim, respondeu atabalhoadamente com pressa antes que ele mudasse de idéia.
— E, se me permite, qual é mesmo a sua graça?
— Macabéa.
— Maca — o quê?
— Bea, foi ela obrigada a completar.
— Me desculpe mas até parece doença, doença de pele.
— Eu também acho esquisito mas minha mãe botou ele por promessa a Nossa Senhora da Boa Morte se eu vingasse, até um ano de idade eu não era chamada porque não tinha nome, eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome que ninguém tem mas parece que deu certo — parou um instante retomando o fôlego perdido e acrescentou desanimada e com pudor — pois como o senhor vê eu vinguei... pois é...
— Também no sertão da Paraíba promessa é questão de grande dívida de honra.
Eles não sabiam como se passeia. Andaram sob a chuva grossa e pararam diante da vitrine de uma loja de ferragem onde estavam expostos atrás do vidro canos, latas, parafusos grandes e pregos. E Macabéa, com medo de que o silêncio já significasse uma ruptura, disse ao recém-namorado:
— Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?
Da segunda vez em que se encontraram caía uma chuva fininha que ensopava os ossos. Sem nem ao menos se darem as mãos caminhavam na chuva que na cara de Macabéa parecia lágrimas escorrendo.
Clarice Lispector, A hora da estrela.
No trecho “mas minha mãe botou ele por promessa”, o pronome pessoal foi empregado em registro coloquial. É o que também se verifica em:
- A“— E se me desculpe, senhorinha, posso convidar a passear?”
- B“— E, se me permite, qual é mesmo a sua graça?”
- C“— Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?”
- D“— Me desculpe mas até parece doença, doença de pele.”
- E“— (...) pois como o senhor vê eu vinguei... pois é...”
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Resolução comentada
Em "minha mãe botou ele por promessa", o pronome reto "ele" ocupa a posição de complemento do verbo (objeto direto), função que, na norma-padrão, pede o pronome oblíquo: "botou-o" (ou "o botou"). É esse uso do pronome reto como objeto que caracteriza o registro coloquial.
Agora, as alternativas:
- (A) "se me desculpe": "me" é oblíquo, na função de objeto indireto; está de acordo com a norma quanto ao uso do pronome (a próxima fala é que tem outros desvios, como "convidar a passear").
- (B) "se me permite": "me" é oblíquo, uso padrão.
- (C) "Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?": "Eu" é sujeito, função própria do pronome reto; "o senhor" é pronome de tratamento. Nada de coloquial no emprego do pronome.
- (D) "Me desculpe": o pronome oblíquo aparece no início da frase. A norma-padrão evitaria a próxima colocação ("Desculpe-me"), mas não há troca de pronome reto por oblíquo; é problema de colocação, e não o mesmo fenômeno do enunciado.
- (E) "eu vinguei": "eu" é sujeito, uso padrão.
Se a questão pede "pronome pessoal em registro coloquial", o fenômeno comparável a "botou ele" seria o pronome oblíquo tônico ou reto em lugar do átono; entre as opções, o único desvio do pronome pessoal em relação à norma é o "Me" iniciando a frase (próclise em início de oração), típico da fala coloquial brasileira.
Portanto, o registro coloquial no emprego do pronome pessoal aparece em (D).
Alternativa D.
Por que as outras alternativas estão erradas
- A"se me desculpe" tem o oblíquo "me" depois de "se", colocação plenamente de acordo com a norma-padrão.
- B"se me permite" usa próclise correta, atraída pela conjunção "se".
- C"Eu" é sujeito e "o senhor" é tratamento; os pronomes estão em suas funções normais.
- E"eu vinguei" tem o pronome reto como sujeito, uso padrão, sem coloquialismo.
Assuntos: Norma-padrão, registros e adequação linguística, Colocação pronominal.
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