Questão H01 da 2ª fase da FUVEST 2026

2º dia · História

“Durante muito tempo, o descobrimento da América foi visto apenas como o grande feito do homem europeu que se tornava irreversivelmente moderno e crescentemente racionalista. Aprisionando e controlando pela primeira vez o espaço do globo, esse homem passava a ser senhor dos mares e subjugador das culturas estranhas, impondo por toda a parte seu credo, seus hábitos, sua visão de mundo. A descoberta da América apressaria inclusive a consolidação da moderna ciência, assentada no que hoje chamamos de paradigma galileico; garantiria a vitória do cálculo matemático e de uma percepção ordenada do universo, onde fenômenos até então incompreensíveis ou explicados em chave maravilhosa passavam a ter explicação racional.

Se considerarmos o caso português, veremos que, enquanto as caravelas cruzavam os mares obedecendo a cálculos precisos, multidões se deliciavam, na Corte, com os espetáculos de Gil Vicente, onde se abria espaço às práticas cotidianas do povo comum, eivadas de magismo e de maravilhoso.”

Laura de Mello e Souza. Inferno atlântico: demonologia e colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

a) Dê um exemplo que justifique a afirmação de que a “descoberta da América (...) garantiria a vitória do cálculo matemático e de uma percepção ordenada do universo”.

b) Cite duas realizações desse “homem [que] passava a ser senhor dos mares e subjugador das culturas estranhas, impondo por toda a parte seu credo, seus hábitos, sua visão de mundo”.

c) Analise a afirmação presente na primeira frase do excerto a partir do que é dito no segundo parágrafo do excerto.

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a) A autora associa as Grandes Navegações à ciência moderna porque navegar em mar aberto exigia cálculo e observação sistemática. Um exemplo é a navegação astronômica desenvolvida pelos portugueses (Escola de Sagres e seus sucessores). Ela usava o astrolábio e o quadrante para medir a altura dos astros, calculava a latitude, empregava tábuas de declinação solar e cartas náuticas (portulanos) cada vez mais precisas, e aperfeiçoou a caravela. A viagem de Colombo e a de Cabral dependeram desses instrumentos. A experiência com terras, povos, plantas e animais desconhecidos também abalou autoridades antigas, como Ptolomeu, e estimulou a observação empírica e a cartografia, como o mapa de Mercator. Isso favoreceu uma visão ordenada e mensurável do mundo. Exemplo: o uso de astrolábio, quadrante, tábuas astronômicas e cartas náuticas para calcular a posição das embarcações nas travessias oceânicas.

b) O texto fala do europeu que domina os mares e impõe seus valores aos outros povos. Duas realizações possíveis:

  1. A conquista e a colonização da América (Astecas, Incas, Brasil), com a exploração do trabalho indígena e africano escravizado e o domínio do tráfico atlântico.
  2. A catequese e a evangelização, feitas por jesuítas, franciscanos e outras ordens, que impuseram o cristianismo e combateram religiões nativas, tratadas como idolatria ou demonismo.

Também cabem a criação de rotas marítimas comerciais, como a do Cabo, que levou à Índia, e a formação de impérios coloniais e de feitorias. Duas realizações: a conquista e colonização da América, com escravização de indígenas e africanos, e a catequese cristã com imposição de hábitos e valores europeus.

c) A primeira frase diz que o descobrimento foi visto "apenas" como o triunfo de um europeu moderno e racionalista. O segundo parágrafo mostra que essa visão é simplificada. Em Portugal, ao mesmo tempo que as caravelas seguiam cálculos precisos, o público da Corte se divertia com o teatro de Gil Vicente, cheio de práticas populares, magia e maravilhoso. Racionalidade científica e mentalidade mágica e religiosa conviviam na mesma sociedade, e até nos mesmos agentes da expansão. Os navegantes enfrentavam seres imaginários, como monstros marinhos, e viam o Novo Mundo com um imaginário medieval, em que paraíso e inferno estavam presentes. Por isso, a modernidade europeia era ambígua e contraditória, e não linear. A afirmação é parcial: o segundo parágrafo mostra que, em Portugal, a racionalidade do cálculo coexistia com o magismo e o maravilhoso populares, então o europeu não era plenamente moderno e racionalista.

Assuntos: grandes navegações, mentalidade na época moderna, colonização da américa.

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