Questão 7 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2022

1º dia · Português

Sweet Home

Quebra-luz, aconchego.
Teu braço morno me envolvendo.
A fumaça de meu cachimbo subindo.

Como estou bem nesta poltrona de humorista inglês.

O jornal conta histórias, mentiras...

Ora afinal a vida é um bruto romance
e nós vivemos folhetins sem o saber.

Mas surge o imenso chá com torradas,
chá de minha burguesia contente.
Ó gozo de minha poltrona!
Ó doçura de folhetim!
Ó bocejo de felicidade!

Carlos Drummond de Andrade. Alguma Poesia.

a) Por que a expressão em inglês sweet home suscita, no título do poema, um teor de ironia?

b) Na circunstância do poema, os termos “bruto romance” e “folhetins”, como formas literárias, representam diferentes visões de mundo, estabelecendo entre si um contraste simbólico. Comente.

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Resolução comentada

a) Sweet home ("doce lar") é uma expressão estrangeira, quase um clichê da vida doméstica burguesa, associada ao conforto, ao aconchego e à segurança do lar. No poema, o eu lírico descreve exatamente esse cenário: quebra-luz, braço morno, cachimbo, poltrona, chá com torradas. Até aqui, o título parece sincero.

A ironia vem de três pontos. Primeiro, o inglês é uma pose: o eu lírico se vê como "humorista inglês", imitando um modelo europeu de vida confortável, o que é típico do deslumbramento da burguesia brasileira dos anos 1920 pelo estrangeiro. Segundo, o poeta, modernista, se distancia desse ideal e o mostra como acomodação: "minha burguesia contente", "bocejo de felicidade". Terceiro, a doçura do lar é rotina, tédio e alienação, pois a vida real, o "bruto romance", fica fora do quadro. O título anuncia idealização e o poema a desmonta com humor crítico. A expressão em inglês, que simboliza o lar burguês ideal, é usada ironicamente: o poema revela esse conforto como pose imitativa, acomodação e tédio.

b) "Romance" e "folhetim" são formas narrativas com valores diferentes. O romance, sobretudo o "bruto romance" (palavra que sugere algo grande, intenso, áspero), representa a vida em sua complexidade, com conflitos, dor, paixão e risco. O folhetim, publicado em capítulos nos jornais, é narrativa de entretenimento fácil, sentimental, cheia de peripécias e reviravoltas, feita para consumo rápido e leitura passiva.

O contraste simbólico está em que o eu lírico reconhece que a vida é um "bruto romance", mas diz que vivemos "folhetins sem o saber". Ou seja, a existência é densa e difícil, mas o sujeito burguês a vive de modo superficial, enxergando-a como história banal que se consome sentado, de poltrona, lendo o jornal "de histórias, mentiras". O "folhetim" é, portanto, a visão de mundo acomodada, alienada e confortável. O "romance" é a visão mais profunda e crítica, que o poema sugere e a burguesia contente evita. O fecho ("Ó doçura de folhetim!") confirma a ironia: o eu lírico se entrega à doçura do folhetim. O "bruto romance" simboliza a vida real, densa e conflituosa; o "folhetim" simboliza a visão superficial, sentimental e alienada da burguesia, que vive confortavelmente sem perceber a complexidade da existência.

Assuntos: modernismo, drummond, ironia.

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