Questão 9 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2019

1º dia · Português

Considere os textos para responder às questões.

Cap. XI O menino é pai do homem

Sim, meu pai adorava-me. Tinha-me esse amor sem mérito, que é um simples e forte impulso da carne; amor que a razão não contrasta nem rege. Minha mãe era uma senhora fraca, de pouco cérebro e muito coração, assaz crédula, sinceramente piedosa, - caseira, apesar de bonita, e modesta, apesar de abastada; temente às trovoadas e ao marido. O marido era na Terra o seu deus. Da colaboração dessas duas criaturas nasceu a minha educação, que, se tinha alguma coisa boa, era no geral viciosa, incompleta, e, em partes, negativa.

Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Quarta-feira, 10 de julho.

Meu pai é muito querido na família. Todos gostam dele e dizem que é muito bom marido e um homem muito bom. Eu gosto muito disso, mas fico admirada de todo mundo só falar que meu pai é bom marido e nunca ninguém dizer que mamãe é boa mulher. No entanto, no fundo do meu coração, eu acho que só Nossa Senhora pode ser melhor que mamãe.

Helena Morley, Minha vida de menina.

a) Os trechos acima se assemelham por serem retratos dos pais realizados por seus filhos: no primeiro deles, o menino Brás Cubas; no segundo, a pequena Helena. Você concorda com essa afirmação? Justifique sua resposta com base nos tempos verbais e na linguagem empregada em cada um deles.

b) Nos trechos acima, as expressões “O marido era na Terra o seu deus” e “só Nossa Senhora pode ser melhor que mamãe” dão, respectivamente, exemplos de duas formas contrastantes de organização familiar, o patriarcado e o matriarcado. Você concorda com essa afirmação? Justifique sua resposta com base em ambas as passagens.

Reportar erro na questão
O que está errado?
Sem cadastro: não guardamos quem enviou.
Resolução comentada

a) Não concordo. Os dois textos retratam os pais, mas não são retratos feitos por um menino e por uma menina.

No trecho de Machado, quem fala é o defunto-autor Brás Cubas, adulto (na verdade já morto), que olha para a infância de uma perspectiva distante. Os verbos estão no pretérito: "adorava-me", "tinha-me", "era", "nasceu", "tinha". O pretérito marca o recuo no tempo e a análise crítica de quem avalia a própria formação ("viciosa, incompleta, e, em partes, negativa"). A linguagem é culta, irônica e analítica, com vocabulário abstrato ("razão", "colaboração", "educação") e construções elaboradas. Não é a voz de um menino.

No trecho de Helena Morley, que é um diário, o registro é contemporâneo ao fato. Predomina o presente do indicativo: "é", "gostam", "dizem", "gosto", "fico", "acho", "pode ser". A menina fala de seu ponto de vista de criança, com linguagem simples, coloquial e afetiva ("muito querido", "todo mundo", "mamãe"), e deixa ver sua perplexidade.

Resposta: não; Brás Cubas é um adulto que avalia criticamente o passado (pretérito, linguagem culta e irônica), enquanto Helena é uma criança que registra o presente (presente do indicativo, linguagem simples e coloquial).

b) Concordo só em parte: a primeira passagem exemplifica o patriarcado, mas a segunda não exemplifica o matriarcado.

Em "O marido era na Terra o seu deus", a mãe de Brás Cubas é submissa e dependente da autoridade do marido, que ocupa o lugar de poder supremo. Isso é patriarcado: o homem comanda a família e a mulher obedece (ela é "temente [...] ao marido").

Em "só Nossa Senhora pode ser melhor que mamãe", Helena exprime admiração e afeto pela mãe, mas não descreve uma família em que a mulher detenha a autoridade. Ao contrário, ela nota que "todo mundo só fala que meu pai é bom marido e nunca ninguém diz que mamãe é boa mulher": o elogio social vai ao homem e o valor da mulher é invisível. Isso indica que a sociedade em volta também é patriarcal. A fala da menina é uma reação sentimental a essa desigualdade, e não a descrição de um matriarcado.

Resposta: concordo em parte; a primeira frase mostra o patriarcado, mas a segunda expressa o afeto da filha e a injustiça do reconhecimento ao pai, dentro de uma sociedade ainda patriarcal, e não um matriarcado.

Assuntos: interpretação de texto, tempos verbais e registro linguístico, patriarcado na literatura.

Reportar erro na resolução
O que está errado?
Sem cadastro: não guardamos quem enviou.
Ver como caiu na prova Questão 9 no caderno  da 2ª fase da FUVEST 2019