Questão 7 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2019
Os trechos seguintes foram extraídos do texto “Casas de cômodos”, que consiste em um apanhado de impressões recolhidas pelo escritor Aluísio Azevedo. Leia-os para responder às questões.
I. Há no Rio de Janeiro, entre os que não trabalham e conseguem sem base pecuniária fazer pecúlio e até enriquecer, um tipo digno de estudo – é o “dono de casa de cômodos”; mais curioso e mais completo no gênero que o “dono de casa de jogo”, pois este ao menos representa o capital da sua banca, suscetível de ir à glória, ao passo que o outro nenhum capital representa, nem arrisca, ficando, além de tudo, isento da pecha de mal procedido.
Quase sempre forasteiro, exercia dantes um ofício na pátria que deixou para vir tentar fortuna no Brasil; mas, percebendo que aqui a especulação velhaca produz muito mais do que o trabalho honesto, tratou logo de esconder as ferramentas do ofício e de fariscar os meios de, sem nada fazer, fazer dinheiro.
II. (...) há sempre uma quitandeira de quem o dono da casa de cômodos, começando por merecer a simpatia, acaba por conquistar a confiança e o amor. Juntam-se e, quando ela dá por si, está cozinhando e lavando para todos os hóspedes do eleito do seu coração, sem outros vencimentos além das carícias, que lhe dá o amado sócio.
Assim chega a empresa ao seu completo desenvolvimento, e o dono da casa de pensão começa a ganhar em grosso, acumulando forte, sem trabalhar nunca, nem empregar capital próprio, até que um dia, farto de aturar o Brasil, passa com luvas o estabelecimento e retira-se para a pátria, deixando, naturalmente também com luvas, a preciosa quitandeira ao seu substituto.
Aluísio Azevedo, Casas de cômodos.
a) Que recurso da estética naturalista surge já no início das notas, feitas em razão do cotidiano nacional da época? Justifique.
b) Para o leitor de O Cortiço, salta à vista o aproveitamento que Aluísio Azevedo fez de parte dessas impressões ao conceber a relação entre João Romão e Bertoleza. Há também, contudo, diferenças relevantes. Qual o fator que, central na sociedade brasileira do século XIX, acentua o tom perverso do final do romance? Justifique com base no enredo.
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Resolução comentada
a) Já no início das notas aparece o recurso da tipificação, ligado ao método de observação científica do Naturalismo. O autor descreve o "dono de casa de cômodos" como "um tipo digno de estudo", isto é, como um espécime social observado, classificado e analisado de modo impessoal. Ele o compara ao "dono de casa de jogo", como um naturalista compara espécies, e generaliza traços: "quase sempre forasteiro", que abandona o ofício para fazer dinheiro com a "especulação velhaca". O indivíduo vira exemplar de um grupo. Isso reflete a tese naturalista de que o meio e o interesse material determinam o comportamento. Esse mesmo procedimento está em O Cortiço, em que João Romão representa o imigrante português ambicioso.
Resposta: a tipificação (observação e análise de um "tipo" social, com generalização, de feição científica e determinista).
b) O fator é a escravidão. Nas notas, a quitandeira se junta ao dono da casa por afeto e confiança, e é explorada, trabalhando sem pagamento, mas é livre. Em O Cortiço, Bertoleza é escrava, uma negra que trabalha como quitandeira e paga ao dono uma parte dos ganhos para juntar dinheiro e comprar a alforria. João Romão se aproveita dela. Faz-se seu amante, toma suas economias e a engana com uma carta de alforria falsa, enquanto ela continua trabalhando para ele e para o cortiço. A relação deixa de ser apenas exploração afetiva e econômica e passa a ser a apropriação de uma pessoa escravizada. Quando João Romão decide se casar com a filha de Miranda, ascender socialmente e se livrar de Bertoleza, ele a denuncia aos antigos senhores. Ao ver os captores, ela se suicida com uma faca. A perversidade do final vem de a escravidão permitir tratá-la como propriedade, descartável.
Resposta: a escravidão; Bertoleza, escrava enganada e explorada por João Romão, é denunciada por ele e se mata quando vão capturá-la.
Assuntos: naturalismo, o cortiço, aluísio azevedo.
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