Questão G05 da 2ª fase da FUVEST 2015
Considere o texto abaixo para responder à questão.
O que houve em Canudos e continua a acontecer hoje, no campo como nas grandes cidades brasileiras, foi o choque do Brasil “oficial e mais claro” com o Brasil “real e mais escuro” (...). Euclides da Cunha, formado, como todos nós, pelo Brasil oficial, de repente, ao chegar ao sertão, viu-se ofuscado pelo Brasil real de Antônio Conselheiro e seus seguidores. Sua intuição de escritor de gênio e seu nobre caráter de homem de bem colocaram-no imediatamente ao lado do Conselheiro, para honra e glória do escritor. De modo que, entre outros erros e contradições, só lhe ocorreu, além da corajosa denúncia do crime, pregar uma “modernização” que consistiria, finalmente, em conformar o Brasil real pelos moldes do Brasil oficial. Isto é, uma modernização falsificadora e falsa, que, como a que estão tentando fazer agora, é talvez pior do que uma invasão declarada. Esta apenas destrói e assola, enquanto a falsa modernização, no campo como na cidade, descaracteriza, assola, destrói e avilta o povo do Brasil real.
Ariano Suassuna. Folha de S. Paulo, 30/11/1999. Adaptado.
a) Identifique e explique dois elementos da questão agrária brasileira contemporânea que justificam a expressão “falsa modernização no campo”.
b) Descreva uma característica comum entre o movimento de Canudos e os movimentos sociais que atuam no campo brasileiro na atualidade.
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Resolução comentada
a) Ariano Suassuna chama de "falsa modernização" aquela que traz tecnologia e capital ao campo sem resolver a desigualdade nem respeitar o modo de vida do "Brasil real". Dois elementos da questão agrária atual se encaixam nisso:
- Concentração fundiária e expansão do agronegócio. A modernização técnica (máquinas, insumos químicos, sementes transgênicas, monoculturas de soja, cana e pecuária voltadas à exportação) beneficia sobretudo grandes proprietários e empresas. Ela mantém a estrutura de grandes propriedades e expulsa pequenos produtores, posseiros, indígenas e quilombolas, que perdem terra para a expansão da fronteira agrícola. A produtividade cresce, mas a terra continua concentrada.
- Mecanização e precarização do trabalho. A mecanização reduz o emprego rural e provoca o êxodo para as cidades. Onde o trabalho manual persiste (corte de cana, por exemplo), há baixos salários, informalidade e, em casos extremos, trabalho análogo ao de escravo. Há ainda impactos ambientais e a descaracterização da agricultura familiar e camponesa.
Assim, a modernização é "falsa" porque é técnica e econômica, mas não é social: exclui o homem do campo.
Resposta: concentração fundiária (agronegócio que expulsa pequenos produtores e comunidades tradicionais) e mecanização com precarização do trabalho e êxodo rural.
b) Canudos (1893-1897) foi uma comunidade de sertanejos pobres, liderada por Antônio Conselheiro, que se organizou em torno do acesso à terra e de uma vida coletiva, sem ser submetida ao latifúndio nem ao poder das elites locais. Foi duramente reprimida pelo Estado, que a viu como ameaça à ordem.
Os movimentos sociais rurais atuais, como o MST e a Comissão Pastoral da Terra, têm característica semelhante: reúnem camponeses pobres e sem terra que lutam pelo acesso à terra e por condições dignas de vida, em oposição à concentração fundiária. Como Canudos, são frequentemente criminalizados e reprimidos, e sofrem violência no campo.
Resposta: a luta de camponeses pobres pelo acesso à terra contra a concentração fundiária, com organização coletiva e frequente repressão ou criminalização por parte do Estado e dos grandes proprietários.
Assuntos: questão agrária, movimentos sociais no campo, agronegócio.
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