Questão 8 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2011

1º dia · Português

Leia o excerto de A cidade e as serras, de Eça de Queirós, e responda ao que se pede.

Era um domingo silencioso, enevoado e macio, convidando às voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) sugeri a Jacinto que subíssemos à basílica do Sacré-Coeur, em construção nos altos de Montmartre. (...)

Mas a basílica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e andaimes, toda branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E Jacinto, por um impulso bem jacíntico, caminhou gulosamente para a borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o céu cinzento, na planície cinzenta, a cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada de caliça* e telha. E, na sua imobilidade e na sua mudez, algum rolo de fumo**, mais tênue e ralo que o fumear de um escombro mal apagado, era todo o vestígio visível de sua vida magnífica.

*Caliça: pó ou fragmentos de argamassa ressequida, que sobram de uma construção ou resultam da demolição de uma obra de alvenaria.

**Fumo: fumaça.

a) Em muitas narrativas, lugares elevados tornam-se locais em que se dão percepções extraordinárias ou revelações. No contexto da obra, é isso que irá acontecer nos “altos de Montmartre”, referidos no trecho? Justifique sua resposta.

b) Tendo em vista o contexto histórico da obra, por que é Paris a cidade escolhida para representar a vida urbana? Explique sucintamente.

c) Sintetizando-se os termos com que, no excerto, Paris é descrita, que imagem da cidade finalmente se obtém? Explique sucintamente.

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Resolução comentada

a) Sim. Em A cidade e as serras, a subida a Montmartre marca uma revelação para Jacinto. Do alto, Paris aparece cinzenta e silenciosa, quase sem vida. Essa visão abala a crença do personagem na cidade como lugar de felicidade e plenitude, a "civilização" que ele cultuava. É o primeiro golpe em sua fé urbana, que depois se completa em Tormes, onde Jacinto descobre a vida simples do campo, a natureza e os valores rurais. O narrador (Zé Fernandes) conduz a cena "no interesse da minha alma", e o texto já sugere a mudança de perspectiva. A visão de cima gera distanciamento crítico: Jacinto percebe a fragilidade e o vazio do que antes o encantava. Sim: a vista do alto revela a Jacinto a face vazia e decadente da cidade, abalando sua crença no ideal urbano.

b) No século XIX, Paris era a capital cultural e política do mundo ocidental, modelo de modernidade, progresso técnico e refinamento. Era o centro da moda, das artes, das ideias e do consumo, e referência para as elites europeias, inclusive as portuguesas, que a imitavam. Ela concentrava os símbolos da civilização urbana, industrial e burguesa, e é isso que Eça critica por meio de Jacinto, que vive cercado de tecnologia e luxo. Por isso Paris é a escolha natural para representar a vida urbana e a ideia de "civilização" como progresso. Porque Paris, no século XIX, era o grande modelo de civilização, progresso e modernidade urbana, o que a torna o alvo ideal da crítica do romance.

c) O excerto reúne termos como "cinzento" (repetido três vezes), "imobilidade", "mudez", "caliça e telha", "escombro mal apagado" e fumo "tênue e ralo". Juntos, eles compõem uma imagem de cidade sem cor, sem movimento e sem som, semelhante a ruínas ou a uma cidade morta, restos de uma construção ou demolição. A "vida magnífica" de Paris reduz-se a vestígios. A imagem é de uma cidade esvaziada e decadente, que contrasta com o brilho que Jacinto lhe atribuía e que o texto desmente. Paris surge como uma cidade morta, de ruínas e escombros: cinzenta, imóvel, muda e esvaziada de vida.

Assuntos: a cidade e as serras, eça de queirós, realismo português.

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