Questão 9 (2º dia) da 2ª fase da FUVEST 2010

2º dia · História

No Sábado de Aleluia, os seringueiros do Alto-Purus desforram-se [com a malhação de Judas] de seus dias tristes. Não tiveram missas solenes, nem procissões luxuosas, nem lavapés tocantes, nem prédicas comovidas. Toda a Semana Santa correu-lhes na mesmice torturante daquela existência imóvel, feita de idênticos dias de penúrias, de meios jejuns permanentes, de tristezas e de pesares, que lhes parecem uma interminável Sexta-Feira da Paixão, a estirar-se, angustiosamente, indefinida, pelo ano todo afora.

Euclides da Cunha. À margem da História, 1909. Adaptado.

O texto descreve um aspecto da vida dos nordestinos na Amazônia. Em relação a esse tema, discorra sobre

a) a situação material dos nordestinos, em sua região de origem, e os fatores que estimularam sua migração para a Amazônia, na segunda metade do século XIX.

b) as condições de vida dos seringueiros relacionadas à produção da borracha na Amazônia, nessa época.

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Resolução comentada

a) Na segunda metade do século XIX, o Nordeste vivia uma crise econômica prolongada. A lavoura canavieira e a do algodão perdiam competitividade diante do açúcar de outras regiões e de outros países. Além disso, o fim do tráfico negreiro (1850) e a Lei do Ventre Livre desorganizaram o trabalho escravo. Parte dos escravos era vendida para o Sudeste cafeeiro, o que agravava o declínio da região.

A população livre pobre (sertanejos, agregados, pequenos lavradores) vivia em situação material precária: concentração de terras nas mãos de poucos proprietários, salários baixos e falta de acesso à terra. As secas, em especial a grande seca de 1877-1879, provocaram fome, mortes e êxodo rural.

Esses fatores de expulsão se somaram a um fator de atração: a expansão da demanda mundial por borracha, usada na indústria (pneus, isolantes) com a Segunda Revolução Industrial, que exigia mão de obra na floresta. Havia propaganda de agenciadores e de governos locais, que prometiam enriquecimento rápido, além de adiantamentos para a viagem. Milhares de nordestinos migraram, sobretudo para o Acre e o Purus.

Resposta: crise do açúcar e do algodão, concentração fundiária, desorganização do trabalho escravo e secas (como a de 1877-79) empobreceram o Nordeste, e a alta demanda internacional por borracha, com propaganda e promessas de ganho fácil, atraiu os migrantes para a Amazônia.

b) Os seringueiros trabalhavam isolados na floresta, em colocações distantes entre si, extraindo o látex das seringueiras e defumando-o para fazer as pélas de borracha. A jornada era longa e o trabalho, insalubre, com riscos de malária, febre amarela, beribéri e ataques de animais ou conflitos com indígenas.

As condições eram regidas pelo sistema de aviamento. O seringalista (patrão) adiantava ferramentas, alimentos e remédios, vendidos a preços muito altos no barracão, e comprava a borracha por valores baixos. O seringueiro, assim, endividava-se e ficava preso ao seringal, numa situação de semiescravidão por dívida, vigiada por capangas. A alimentação era pobre e monótona, o que explica a "mesmice torturante" e os "meios jejuns" citados por Euclides da Cunha. Quase não havia assistência religiosa, médica ou educacional, e o lucro maior ia para seringalistas, casas aviadoras e exportadores.

Resposta: os seringueiros viviam isolados, doentes e malnutridos, endividados pelo sistema de aviamento (barracão), em semiescravidão por dívida, enquanto a riqueza da borracha beneficiava patrões e exportadores.

Assuntos: ciclo da borracha, migração nordestina, aviamento.

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