Questão P10 da 2ª fase da FUVEST 2009

2ª fase · Português

Leia o trecho do conto “Minha gente”, de Guimarães Rosa, e responda ao que se pede.

Oh, tristeza! Da gameleira ou do ingazeiro, desce um canto, de repente, triste, triste, que faz dó. É um sabiá. Tem quatro notas, sempre no mesmo, porque só ao fim da página é que ele dobra o pio. Quatro notas, em menor, a segunda e a última molhadas. Romântico.
Bento Porfírio se inquieta:
— Eu não gosto desse passarinho!... não gosto de violão... De nada que põe saudades na gente.

J. Guimarães Rosa. Minha gente. Sagarana.

a) No trecho, a menção ao sabiá e a seu canto, enfaticamente associados a “Romântico” e a “saudades”, indica que o texto de Guimarães Rosa pode remeter a um poema, dos mais conhecidos da literatura brasileira, escrito em um período em que se afirmava o nacionalismo literário. Identifique o poema a que remete o texto de Rosa e aponte o nome de seu autor.

b) Considerando o trecho no contexto de Sagarana, a provável referência, nele presente, a um autor brasileiro indica que Guimarães Rosa é um escritor nacionalista, que rejeita o contato com línguas e culturas estrangeiras? Justifique sucintamente sua resposta.

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Resolução comentada

a) O sabiá, o canto triste e a ligação com "Romântico" e "saudades" remetem à "Canção do exílio", de Gonçalves Dias, escrita em 1843, na primeira geração romântica, quando se afirmava o nacionalismo literário. No poema, o eu lírico exilado sente saudade da pátria, e o sabiá é o símbolo dessa saudade: "Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá". O sabiá de Rosa tem o mesmo efeito sobre Bento Porfírio, que não gosta de nada "que põe saudades na gente". O autor do poema é Gonçalves Dias.

b) Não. A referência a Gonçalves Dias não faz de Rosa um nacionalista que rejeita o estrangeiro. Ele retoma a tradição literária brasileira com ironia e distância, já que o sabiá aparece como "romântico" e causa desgosto em Bento Porfírio. Além disso, Sagarana é regionalista, mas universal. Parte do sertão mineiro, de sua fala e de seus costumes, e os articula com a literatura de outras línguas e culturas. Rosa conhecia muitas línguas e incorporou termos estrangeiros, tradições orais e modelos universais, como a novela de cavalaria, a fábula e o conto popular. Por isso ele dialoga com a tradição nacional sem se fechar às culturas e línguas estrangeiras.

Assuntos: canção do exílio, guimarães rosa, romantismo.

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