PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão P10 da 2ª fase da FUVEST 2008
Em seu poema chamado “Graciliano Ramos:”, João Cabral de Melo Neto coloca-se no lugar desse escritor e desenvolve quatro afirmações:
I. “Falo somente com o que falo:” (= com os meios que uso para expressar-me, com o estilo que emprego).
II. “Falo somente do que falo:” (= dos assuntos de que trato, dos aspectos que privilegio).
III. “Falo somente por quem falo:” (= em nome de quem falo, a quem dou voz em minha obra).
IV. “Falo somente para quem falo:” (= a quem me dirijo ao escrever, de que modo trato o leitor).
Imitando o procedimento de João Cabral, coloque-se no lugar de Graciliano Ramos e desenvolva cada uma dessas quatro afirmações, tendo como referência o romance Vidas secas.
(Observação: As quatro afirmações a serem desenvolvidas encontram-se reproduzidas na página de respostas).
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Resolução comentada
a) Falo somente com o que falo: em Vidas secas uso uma linguagem seca, econômica, como a vida das personagens. Frases curtas, poucos adjetivos, vocabulário concreto e sem ornamento. Uso o discurso indireto livre, que mistura a voz do narrador e o pensamento da personagem, e assim dou acesso à consciência de Fabiano, Sinhá Vitória e dos meninos sem lhes emprestar eloquência que não têm. A narrativa em capítulos quase autônomos, sem enredo de grandes lances, também reflete o ciclo de seca e retirada.
Resposta: falo com linguagem enxuta, frases curtas e discurso indireto livre, que combinam com a aridez do sertão e a precariedade das personagens.
b) Falo somente do que falo: trato da seca, da miséria, da fome e da busca de sobrevivência de uma família de retirantes no sertão nordestino. Privilegio a opressão social: a dependência de Fabiano em relação ao patrão, que o explora, o soldado amarelo, que o humilha, e a injustiça do sistema. Trato também da dificuldade de comunicação, da quase falta de linguagem, e dos sonhos mínimos (uma cama, a escola, a água). A cachorra Baleia mostra que o animal também sofre e sonha.
Resposta: falo da seca, da fome, da exploração e da humilhação social, e do mundo interior limitado de quem vive à margem.
c) Falo somente por quem falo: dou voz aos sertanejos pobres, analfabetos e sem poder, que não têm meios de narrar a própria história: Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho e o mais novo, Baleia. Falo por eles, mas sem me impor como porta-voz que os idealiza. Mostro a inarticulação de Fabiano, que se vê como bicho, para denunciar uma condição social que o priva da palavra. Falo pelos que não conseguem falar.
Resposta: falo pelos retirantes pobres e sem voz, a família de Fabiano e Baleia, que o sistema silencia.
d) Falo somente para quem falo: dirijo-me ao leitor letrado, urbano, de outra classe, distante do sertão e que provavelmente ignora aquela realidade. Não o conforto com sentimentalismo nem com pitoresco: trato-o com rigor e sem concessões, obrigando-o a encarar o problema com lucidez e a se incomodar. Meu objetivo é provocar consciência social e crítica diante da desigualdade, não oferecer consolo nem evasão.
Resposta: falo ao leitor letrado e distante, a quem não poupo da dureza da realidade, para despertar sua consciência social.
Assuntos: Graciliano Ramos, Romance de 30: regionalismo e romance social.
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