Redação nota 1000 do Enem 2022: Luiz André Lomeu de Almeida

Tema: Desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil

A Constituição Federal de 1988 foi o primeiro documento que se propôs a se empenhar a contemplar todos os povos existentes no país. No entanto, a concessão do direito ao pleno reconhecimento legal e social limita-se meramente ao segmento normativo, uma vez que, na realidade, indígenas, ciganos, extrativistas e tantos outros grupos de tradição nacional sofrem ataques diários a sua existência. Nesse sentido, há óbices para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil, haja vista a negligência do sistema educacional em não difundir integralmente sua cultura e os históricos ataques aos seus territórios.

Em primeira instância, o significativo entrave que causa a desvalorização desses segmentos da sociedade advém da inobservância da educação quanto à pluralidade identitária da nação. Sob esse prisma, a Lei de Diretrizes e Bases, ao instituir a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), determina o conteúdo e as prescrições do que será estudado nas instituições de ensino brasileiro, bem como objetiva promover a inclusão e o respeito por meio do ato de lecionar. Todavia, essa legislação falha, em seu modelo atual, em cumprir seus princípios no que tange a esses grupos tradicionais. O currículo nacional, nessa perspectiva, aborda superficialmente essas comunidades, apresentando materiais escritos que se limitam a tratar de indígenas e de quilombolas. Assim, essa distorção leva a um processo de alienação frente à diversidade cultural brasileira.

Outrossim, as persistentes agressões à integridade territorial dos povos da tradição do país agravam o atual cenário. Nesse contexto, é marcante na história nacional a afronta da expansão econômica diante de terras socialmente ocupadas. A década de 1970, por exemplo, destaca-se pela diminuição de áreas indígenas, em virtude da ampliação de fronteiras agrícolas, em meio às demandas da Revolução Verde. Posteriormente, a construção da hidrelétrica do Rio Xingu foi responsável pela perda de moradia de ribeirinhos. Desse modo, a continuidade desse processo reforça a subvalorização dessas organizações, na medida que são paulatinamente privadas de locais para se desenvolver.

Infere-se, portanto, que o Brasil vivencia desafios para valorizar seus grupos tradicionais, tendo em vista as disfunções educacionais e a ampliação da economia. Isso posto, urge ao Governo Federal, mediado pelo Ministério da Educação, realizar mudança na BNCC, aumentando a abordagem sobre esses povos nas aulas de ciências humanas, de modo a especificá-los integralmente e versar sobre sua cultura. Ademais, cabe ao Ministério do Meio Ambiente realizar sólida demarcação de suas terras de vivência, de maneira a bloquear expansões de mercado que as ocupem, ocorrendo também o monitoramento militar. Assim, as medidas terão o fim de garantir o reconhecimento e o desenvolvimento dessas comunidades.

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de Luiz André Lomeu de Almeida na cartilha do INEP
Comentário da banca

O participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, com excelente estruturação sintática em um texto, com apenas um desvio de escrita, com o emprego de “na medida que” em vez de “à medida que”, em “Desse modo, a continuidade desse processo reforça a subvalorização dessas organizações, na medida que são paulatinamente privadas de locais para se desenvolver.”, no final do terceiro parágrafo.

No que se refere à estruturação do texto dissertativo-argumentativo, entende-se que o tema é abordado em sua totalidade no decorrer dos quatro parágrafos. No primeiro parágrafo, o participante expõe o problema: os grupos tradicionais estão desprotegidos no país, apesar do seu direito de “pleno reconhecimento legal e social”, concedido pela Constituição Federal de 1988. A causa apontada está no sistema educacional, por este não difundir integralmente sua cultura e os históricos ataques aos territórios das comunidades e povos tradicionais no Brasil. No segundo parágrafo, é especificado o desafio que o sistema educacional deverá enfrentar para que as populações tradicionais sejam devidamente valorizadas: a abordagem superficial dessas comunidades pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O terceiro parágrafo traz fatos que aprofundam o problema: a ampliação de fronteiras agrícolas, “em meio às demandas da Revolução Verde” e, ainda, a construção da hidrelétrica do Rio Xingu, prejudicando a moradia dos ribeirinhos. O parágrafo final fecha o texto, propondo mudança na BNCC pelo Ministério da Educação, para ampliação da abordagem sobre esses povos, e o bloqueio de expansões de mercado, com monitoramento militar, a cargo do Ministério do Meio Ambiente.

Percebe-se, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto, com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, em defesa do ponto de vista apresentado. Na introdução, o participante aponta o fato desencadeador do problema: os povos tradicionais, como “indígenas, ciganos, extrativistas e tantos outros grupos de tradição nacional sofrem ataques diários a sua existência”, apesar de a Constituição Federal de 1988 conceder o “direito ao pleno reconhecimento legal e social” a todos os povos no país. Para esse fato, segundo o texto, está em débito o sistema educacional, por não difundir integralmente sua cultura e os históricos ataques aos territórios das comunidades e povos tradicionais no Brasil. No segundo parágrafo, o texto aponta o desafio a ser enfrentado: a Lei de Diretrizes e Bases, ao instituir a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), constitui “significativo entrave” que causa a desvalorização desses povos tradicionais, por “abordar superficialmente essas comunidades, apresentando materiais escritos que se limitam a tratar de indígenas e de quilombolas”, inferindo-se, então, que há muitas outras comunidades ancestrais não mostradas pelo currículo. No terceiro parágrafo, reforçando a subvalorização dessas comunidades, são apontados fatos agravantes ao problema: agressões ao território dos povos de tradição do país; diminuição de áreas indígenas, na década de 1970, decorrente da ampliação de fronteiras agrícolas, “em meio às demandas da Revolução Verde” e, ainda, a construção da hidrelétrica do Rio Xingu, responsável pela perda de moradia de ribeirinhos. No parágrafo final, apontando, como visto, as disfunções educacionais e a ampliação da economia como desafios para valorizar seus grupos tradicionais, o texto propõe a necessidade de mudança na BNCC pelo Ministério da Educação, ampliando a abordagem sobre esses povos nas aulas de ciências humanas, assim como o bloqueio de expansões de mercado pelo Ministério do Meio Ambiente, com “sólida demarcação de terras de vivência” e com monitoramento militar.

O texto apresenta continuidade temática e, além disso, o participante emprega, sem inadequações, um repertório variado de recursos coesivos, que articulam os argumentos, as partes do textos e as informações apresentadas, tanto no plano nominal, com o emprego de pronomes (“do que será estudado”, “materiais escritos que se limitam”, “que as ocupem”) e palavras ou expressões sinônimas (“desses segmentos da sociedade” por “comunidades e povos tradicionais”, “no país” e “da nação” por “Brasil”, “desse processo” por “ampliação de fronteiras agrícolas”), como no plano sequencial (“No entanto”, “uma vez que”, “na realidade”, “Assim”, “Isso posto”). Também utilizou os sinais de pontuação ligando palavras, orações e períodos complexos com pertinência e de modo correto.

Como a prova pede proposta de intervenção, esse texto é finalizado com duas propostas que respeitam os direitos humanos, ambas descritas acima. Elas, como se nota, permeiam o texto e são decorrentes do desenvolvimento da argumentação. Essas propostas são detalhadas, mostram o quê e como devem ser realizadas, quem vai realizar o que foi proposto e qual será o efeito dessas ações de intervenção.

Conclui-se que o participante contemplou em o seu texto, integralmente e com excelência, todas as partes da proposta de redação.

Fonte: INEP, A redação do Enem 2023: cartilha do participante, página 33 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.