Redação nota 1000 do Enem 2022: Ana Carolina Angelim Damasceno
O poema “Erro de Português”, do escritor modernista Oswald de Andrade, retrata o processo de aculturação dos indígenas durante a colonização do Brasil. Atualmente, no país, ainda existem inúmeros desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais devido, sobretudo, à ineficiência estatal histórica em assistir esses indivíduos e ao desconhecimento, por parte da população, sobre a diversidade e a importância desses grupos.
É necessário destacar, de início, o descaso do Poder Público em assegurar, de maneira efetiva, os direitos fundamentais às comunidades tradicionais. De fato, o Estado, historicamente, negligenciou a proteção de organizações sociais distintas, tais quais ciganos, quilombolas e indígenas e, muitas vezes, legitimou a dissolução da cultura desses povos, prova disso foi, durante o período de Ditadura Militar, a adoção de uma política assimilacionista, isto é, de integração dos povos nativos aos costumes da sociedade citadina como tentativa de extinguir determinadas tradições. Dessa forma, as populações tradicionais são desvalorizadas e, não raro, não reconhecidas pelo Governo, conjuntura que impossibilita seu pleno exercício de dignidade, tendo em vista a dificuldade de acesso a direitos sociais imprescindíveis para seu bem-estar e para a perpetuação de seus saberes ao longo das gerações, necessários para a manutenção de uma identidade coletiva associada ao reconhecimento de sua ancestralidade.
Além da ineficiência do Estado, o desconhecimento dessa diversidade cultural por parte de muitos indivíduos acentua a desvalorização dos povos tradicionais. Notadamente, a invisibilidade de comunidades históricas compromete o desenvolvimento de senso crítico frente à importância dessas organizações sociais para a construção identitária do país, cenário que comprova o pensamento da escritora brasileira Cecília Meireles, em sua obra “Crônicas da Educação”, na qual consigna: a educação é fundamental para a orientação individual, ou seja, para a criticidade nas inúmeras situações da vida social. Conforme esse raciocínio, a sociedade não valoriza devidamente as populações ancestrais e, diversas vezes, segrega essas coletividades por não conhecer sua relevância para a cultura nacional, comprometendo, assim, a manifestação de suas tradições relacionadas ao sentimento de pertencimento e ao modo de viver em harmonia não só com o espaço, mas também com os outros sujeitos.
É imprescindível, portanto, que Estado, aliado à esfera municipal e estadual de poder, proteja, efetivamente, as comunidades tradicionais do Brasil, por intermédio de políticas públicas voltadas para o reconhecimento oficial de povos ancestrais negligenciados, como extrativistas e pescadores, bem como para a promoção de direitos às diversas organizações culturais — com a demarcação de terras indígenas e quilombolas e a visita periódica de agentes do governo que documentem as necessidades de cada grupo —, a fim de proporcionar o exercício de dignidade para esses indivíduos. Urge, também, que a escola possibilite o conhecimento sobre essas populações, mediante palestras e aulas extracurriculares — com profissionais da área de história e de antropologia, que demonstrem a importância dessas comunidades —, com o intuito de incentivar a criticidade dos estudantes sobre a valorização de povos tradicionais.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
Ver como o INEP publicou
Comentário da banca
Com excelente domínio das convenções da escrita e de estruturação sintática dos períodos, o texto apresenta apenas um desvio no segundo parágrafo: a vírgula foi impropriamente utilizada no trecho “[o Estado] legitimou a dissolução da cultura desses povos, prova disso foi [...]”.
Estruturado em quatro parágrafos, no primeiro, a participante já apresenta o problema proposto: “existem inúmeros desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais”. Dois fatores são apontados para esse problema: a ineficiência histórica do Estado, que não assiste os indivíduos das comunidades e povos tradicionais, e o fato de parte da população desconhecer a diversidade e a importância desses grupos. Na sequência, desenvolve o texto com um repertório pertinente à discussão do tema: no segundo parágrafo, exemplificando, com a “política assimilacionista” do período da Ditadura Militar, a ineficiência estatal, a qual se apresenta como negligência na proteção de organizações sociais tradicionais, como as de ciganos, quilombolas e indígenas, o que legitimou a dissolução da cultura dessas populações, as quais, assim, permanecem desvalorizadas e não reconhecidas pelo Governo; no terceiro parágrafo, citando Cecília Meireles, em sua obra “Crônicas da Educação”, a qual acena com o valor da educação, da criticidade nas situações sociais, no combate ao desconhecimento, por parte da população, sobre a diversidade e a relevância desses grupos. No último parágrafo, apresenta duas propostas de solução decorrentes da discussão desenvolvida: a proteção das comunidades tradicionais, por meio de políticas públicas voltadas para o reconhecimento dos povos ancestrais negligenciados, como extrativistas e pescadores, e a demarcação de terras indígenas e quilombolas, assim como a promoção do conhecimento sobre essas populações pela escola, com o auxílio de profissionais da área de história e de antropologia.
Percebe-se, também, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto, com um ponto de vista defendido com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto: a valorização de comunidades e povos tradicionais do Brasil é um desafio, porque esbarra na ineficiência estatal histórica em proteger esses indivíduos e no desconhecimento, por parte da população, sobre a diversidade e a importância desses grupos. Para defender esse ponto de vista, a participante relembra o período de Ditadura Militar e sua adoção de uma política assimilacionista para comprovar o descaso histórico do Poder Público pelos direitos fundamentais das comunidades tradicionais, na tentativa de extinguir suas tradições, desvalorizá-las, colocando-as em dificuldades para manter uma identidade coletiva. Soma-se a isso o argumento de que a população em geral desconhece essa diversidade cultural, ou seja, esses povos tradicionais são invisíveis, razão pela qual o texto aponta o valor da educação, conforme mostra Cecília Meireles, em “Crônicas da Educação”, para que a sociedade conheça a relevância também dessas culturas ancestrais. Encaminha-se, assim, o texto para o dever do Estado de estabelecer políticas públicas de reconhecimento oficial, de promoção de direitos e de proteção às comunidades tradicionais e a tarefa da escola de possibilitar o conhecimento sobre essas populações, mediante palestras e aulas extracurriculares, com profissionais da área de história e de antropologia, que demonstrem a importância dessas comunidades.
O texto apresenta continuidade temática e, além disso, a participante apresenta, sem inadequações, um repertório variado de recursos coesivos, que articulam os argumentos, as partes do textos e as informações apresentadas, tanto no plano nominal, com o emprego de pronomes (“na qual consigna” , “que demonstrem”), e palavras ou expressões sinônimas (“no país” por “Brasil”, “para esses indivíduos” por “indígenas e quilombolas” e “desses grupos” por “comunidades e povos tradicionais”, “desses povos”, por “ciganos, quilombolas e indígenas”), como no sequencial (“Atualmente”, “sobretudo”, “de início”, “Conforme esse raciocínio”).
Também utilizou, com pertinência e de modo correto, os sinais de pontuação ligando palavras, orações e períodos complexos.
Como a prova pede proposta de intervenção, esse texto é finalizado com duas propostas que respeitam os direitos humanos, ambas descritas acima. Elas, como se nota, permeiam o texto e são decorrentes do desenvolvimento da argumentação. Essas propostas são detalhadas, mostram o quê e como devem ser realizadas, quem vai realizar o que foi proposto e qual será o efeito dessas ações de intervenção.
Conclui-se que a participante contemplou em seu texto, integralmente e com excelência, todas as partes da proposta de redação.
Fonte: INEP, A redação do Enem 2023: cartilha do participante, página 30 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.