Questão 18 do ENEM 2022

1º dia · Linguagens, Códigos

Morte lenta ao luso infame que inventou a calçada portuguesa. Maldito D. Manuel I e sua corja de tenentes Eusébios. Quadrados de pedregulho irregular socados à mão. À mão! É claro que ia soltar, ninguém reparou que ia soltar? Branco, preto, branco, preto, as ondas do mar de Copacabana. De que me servem as ondas do mar de Copacabana? Me deem chão liso, sem protuberâncias calcárias. Mosaico estúpido. Mania de mosaico. Joga concreto em cima e aplaina. Buraco, cratera, pedra solta, bueiro-bomba. Depois dos setenta, a vida se transforma numa interminável corrida de obstáculos. A queda é a maior ameaça para o idoso. “Idoso”, palavra odienta. Pior, só “terceira idade”. A queda separa a velhice da senilidade extrema. O tombo destrói a cadeia que liga a cabeça aos pés. Adeus, corpo. Em casa, vou de corrimão em corrimão, tateio móveis e paredes, e tomo banho sentado. Da poltrona para a janela, da janela para a cama, da cama para a poltrona, da poltrona para a janela. Olha aí, outra vez, a pedrinha traiçoeira atrás de me pegar. Um dia eu caio, hoje não.

TORRES, F. Fim. São Paulo: Cia. das Letras, 2013.

O recurso que caracteriza a organização estrutural desse texto é o(a)

  1. A
    justaposição de sequências verbais e nominais.
  2. B
    mudança de eventos resultante do jogo temporal.
  3. C
    uso de adjetivos qualificativos na descrição do cenário.
  4. D
    encadeamento semântico pelo uso de substantivos sinônimos.
  5. E
    inter-relação entre orações por elementos linguísticos lógicos.
Resolução comentada

O texto é um monólogo interior de um idoso, escrito em frases curtas e soltas. Repare no modo como ele se organiza: há frases nominais, sem verbo, como "Quadrados de pedregulho irregular socados à mão", "Mosaico estúpido", "Mania de mosaico" e "Buraco, cratera, pedra solta, bueiro-bomba". Ao lado delas aparecem frases com verbo, como "Em casa, vou de corrimão em corrimão" e "Um dia eu caio, hoje não".

Essas duas construções são colocadas lado a lado, sem conectivos que as liguem (sem "porque", "portanto", "mas"). Isso é a justaposição, que dá ao texto um ritmo entrecortado, próximo do fluxo de pensamento e da irritação do narrador.

Conferindo as demais:

  1. Não há mudança de eventos por jogo temporal: o tempo é basicamente o presente.
  2. Os adjetivos existem, mas não descrevem um cenário de modo estrutural.
  3. Os substantivos não são sinônimos que encadeiam o sentido.
  4. Há poucos conectivos lógicos, justamente o contrário do que a alternativa afirma.

O recurso estrutural é a justaposição de sequências verbais e nominais.

Alternativa A.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • BO texto não tem sucessão de eventos nem jogo temporal; predomina o presente do monólogo.
  • COs adjetivos aparecem, mas são pontuais e não caracterizam a estrutura do texto nem uma descrição de cenário.
  • DSó "buraco" e "cratera" são quase sinônimos; não há encadeamento de sentido por sinonímia ao longo do texto.
  • EAs orações quase não usam conectivos lógicos; predominam frases curtas soltas.

Assuntos: estrutura textual, justaposição, frase nominal.

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