Redação nota 1000 do Enem 2017: Beatriz Albino Servilha

Tema: Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil

Educação inclusiva

Durante o século XIX, a vinda da Família Real ao Brasil trouxe consigo a modernização do país, com a construção de escolas e universidades. Também, na época, foi inaugurada a primeira escola voltada para a inclusão social de surdos. Não se vê, entretanto, na sociedade atual, tal valorização educacional relacionada à comunidade surda, posto que os embates que impedem sua evolução tornam-se cada vez mais evidentes. Desse modo, os entraves para a educação de deficientes auditivos denotam um país desestruturado e uma sociedade desinformada sobre sua composição bilíngue.

A princípio, a falta de profissionais qualificados dificulta o contato do portador de surdez com a base educacional necessária para a evolução social. O Estado e a sociedade hodierna têm negligenciado os direitos da comunidade surda, pois a falta de intérpretes capacitados para a tradução educativa e a inexistência de vagas em escolas inclusivas perpetuam a disparidade entre surdos e ouvintes, condenando os detentores da surdez aos menores cargos da hierarquia social. Vê-se, pois, o paradoxo que, em um Estado Democrático, ainda haja o ferimento de um direito previsto constitucionalmente: o direito à educação de qualidade.

Além disso, a ignorância social frente à conjuntura bilíngue do país é uma barreira para a capacitação pedagógica do surdo. Helen Keller – primeira mulher surdo-cega a se formar e tornar-se escritora – definia a tolerância como o maior presente de uma boa educação. O pensamento de Helen não tem se aplicado à sociedade brasileira, haja vista que não se tem utilizado a educação para que se torne comum ao cidadão a proximidade com portadores de deficiência auditiva, como aulas de LIBRAS, segunda língua oficial do Brasil. Dessa forma, torna-se evidente o distanciamento causado pela inexperiência dos indivíduos em lidar com a mescla que forma o corpo social a que possuem.

Infere-se, portanto, que é imprescindível a mitigação dos desafios para a capacitação educacional dos surdos. Para que isso ocorra, o Ministério da Educação e Cultura deve viabilizar a inserção de deficientes auditivos nas escolas, por meio da contratação de intérpretes e disponibilização de vagas em instituições inclusivas, com o objetivo de efetivar a inclusão social dos indivíduos surdos, haja vista que a escola é a máquina socializadora do Estado. Ademais, a escola deve preparar surdos e ouvintes para uma convivência harmoniosa, com a introdução de aulas de LIBRAS na grade curricular, a fim de uniformizar o corpo social e, também, cumprir com a máxima de Nelson Mandela que constitui a educação como o segredo para transformar o mundo. Poder-se-á, assim, visar a uma educação, de fato, inclusiva no Brasil.

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de Beatriz Albino Servilha na cartilha do INEP
Comentário da banca

A partir da leitura dessa redação, verifica-se excelente domínio, por parte da participante, da modalidade escrita da língua portuguesa, visto que ela constrói seu texto sem apresentar problemas de estrutura sintática e com apenas um desvio: a imprecisão vocabular no trecho “... o corpo social a que possuem”.

O pleno domínio do texto dissertativo-argumentativo também é observado, uma vez que a participante estrutura adequadamente sua redação, apresentando sua tese, argumentos que a corroboram e uma conclusão que encerra a discussão. Além disso, a participante também demonstra uma leitura atenta da proposta ao abordar o tema de forma completa em seu texto: logo no início, ela apresenta o problema da formação educacional dos surdos, fazendo um contraste entre o aparente progresso em relação à educação dos surdos no século XIX e a situação atual desse setor; depois, elenca os desafios relacionados a essa problemática.

No terceiro parágrafo, nota-se que a participante utiliza, de forma produtiva, repertório sociocultural articulado à sua discussão ao trazer a voz de Helen Keller para seu texto, a fim de embasar seu argumento de que é preciso investir em educação inclusiva.

A boa organização e o desenvolvimento consistente das informações, dos fatos e das opiniões apresentados pela participante em sua redação evidenciam um projeto de texto estratégico e bem executado, que pode ser percebido ao longo de toda a redação. No primeiro parágrafo, a participante apresenta os dois principais problemas relacionados à formação educacional dos surdos: a falta de estrutura do País e a desinformação da sociedade. Esses dois problemas são desenvolvidos em cada um dos parágrafos seguintes e, na conclusão, são apresentadas soluções.

Há também um uso diversificado de recursos coesivos que garantem a fluidez de sua argumentação por todo o texto, com a presença de articuladores tanto entre os parágrafos (“A princípio”, “Além disso”, “portanto”) quanto entre as ideias dentro de um mesmo parágrafo (“Também”, “Desse modo”, “pois”, “haja vista que”, “Ademais”; entre outros).

Com relação à proposta de intervenção, observa-se que a participante realizou essa tarefa com excelência, apresentando uma proposta concreta e detalhada, na qual busca, respeitando os direitos humanos, soluções articuladas aos problemas apresentados em seu texto e ao tema proposto: inclusão dos surdos nas escolas e aula de Libras para toda a comunidade.

Fonte: INEP, Redação no Enem 2018: cartilha do participante, página 45 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.