Redação nota 1000 do Enem 2017: Yasmin Lima Rocha
A formação educacional de surdos encontra, no Brasil, uma série de empecilhos. Essa tese pode ser comprovada por meio de dados divulgados pelo Inep, os quais apontam que o número de surdos matriculados em instituições de educação básica tem diminuído ao longo dos últimos anos. Nesse sentido, algo deve ser feito para alterar essa situação, uma vez que milhares de surdos de todo o país têm o seu direito à educação vilipendiado, confrontando, portanto, a Constituição Cidadã de 1988, que assegura a educação como um direito social de todo cidadão brasileiro.
Em primeira análise, o descaso estatal com a formação educacional de deficientes auditivos mostra-se como um dos desafios à consolidação dessa formação. Isso porque poucos recursos são destinados pelo Estado à construção de escolas especializadas na educação de pessoas surdas, bem como à capacitação de profissionais para atenderem às necessidades especiais desses alunos. Ademais, poucas escolas são adeptas do uso de libras, segunda língua oficial do Brasil, a qual é primordial para a inclusão de alunos surdos em instituições de ensino. Dessa forma, a negligência do Estado, ao investir minimamente na educação de pessoas especiais, dificulta a universalização desse direito social tão importante.
Em segunda análise, o preconceito da sociedade com os deficientes apresenta-se como outro fator preponderante para a dificuldade na efetivação da educação de pessoas surdas. Essa forma de preconceito não é algo recente na história da humanidade: ainda no Império Romano, crianças deficientes eram sentenciadas à morte, sendo jogadas de penhascos. O preconceito ao deficiente auditivo, no entanto, reverbera na sociedade atual, calcada na ética utilitarista, que considera inútil pessoas que, aparentemente menos capacitadas, têm pouca serventia à comunidade, como é o caso dos surdos. Os deficientes auditivos, desse modo, são muitas vezes vistos como pessoas de menor capacidade intelectual, sendo excluídos pelos demais, o que dificulta aos surdos não somente o acesso à educação, mas também à posterior entrada no mercado de trabalho.
Nesse sentido, urge que o Estado, por meio do envio de recursos ao Ministério da Educação, promova a construção de escolas especializadas em deficientes auditivos e a capacitação de profissionais para atuarem não apenas nessas escolas, mas em instituições de ensino comuns também, objetivando a ampliação do acesso à educação aos surdos, assegurando a estes, por fim, o acesso a um direito garantido constitucionalmente. Outrossim, ONGs devem promover, através da mídia, campanhas que conscientizem a população acerca da importância do deficiente auditivo para a sociedade, enfatizando em mostrar a capacidade cognitiva e intelectual do surdo, o qual seria capaz de participar da população economicamente ativa (PEA), caso fosse concedido a este o direito à educação e à equidade de tratamentos, por meio da difusão do uso de libras. Dessa forma, o Brasil poderia superar os desafios à consolidação da formação educacional de surdos.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
Ver como o INEP publicou
Comentário da banca
A partir da leitura dessa redação, verifica-se excelente domínio, por parte da participante, da modalidade escrita da língua portuguesa, visto que ela constrói seu texto sem apresentar problemas de estrutura sintática e com apenas um desvio provocado no uso indevido de acento indicativo de crase em “o que dificulta aos surdos não somente o acesso à educação, mas também à posterior entrada no mercado de trabalho.”, pois a expressão “posterior entrada” está relacionada ao verbo “dificulta” tal como a palavra “acesso”.
Nota-se também um pleno domínio do texto dissertativo-argumentativo, uma vez que a participante estrutura adequadamente sua redação, apresentando sua tese, argumentos que a corroboram e conclusão que encerra a discussão. Além disso, ela demonstra uma leitura atenta da proposta ao abordar o tema de forma completa em seu texto: logo no início, ela apresenta o problema da formação educacional dos surdos, trazendo informações acerca da diminuição da matrícula dos surdos em escolas. Os desafios que resultam nesse quadro são apresentados ao longo de todo o texto.
A participante apresenta repertório sociocultural, mobilizado de forma produtiva e articulada à sua discussão, no 3° parágrafo, ao contextualizar historicamente a discriminação dos deficientes retomando o tratamento dado a esses indivíduos no Império Romano.
A boa organização e o desenvolvimento consistente das informações, dos fatos e das opiniões apresentados pela participante em sua redação evidenciam um projeto de texto estratégico e bem executado, que pode ser percebido ao longo de toda a redação. Depois de destacar, no primeiro parágrafo, a necessidade de intervir nos problemas relacionados à formação educacional dos surdos, a participante dedica os parágrafos seguintes a detalhar esses problemas: a falta de recursos destinados à educação especial e o preconceito enraizado em nossa sociedade. Ao final, são propostas soluções articuladas aos problemas apontados.
A participante também apresenta um uso diversificado de recursos coesivos que garantem a fluidez de sua argumentação. Há articulação tanto entre os parágrafos (“Em primeira análise”, “Em segunda análise” e “Nesse sentido”) quanto entre as ideias dentro de um mesmo parágrafo (por exemplo: “os quais”, “Ademais”, “Essa forma”, “mas”).
Com relação à proposta de intervenção, observa-se que a participante realizou essa tarefa com excelência, apresentando uma proposta concreta e detalhada, na qual busca, respeitando os direitos humanos, soluções articuladas aos problemas apresentados em seu texto e ao tema proposto. A proposta de intervenção inclui as seguintes ações: destinação de recursos à educação especial para a capacitação de professores e construção de escolas, bem como a conscientização da população, visando ao fim do preconceito para com a população surda e sua inserção no mercado de trabalho.
Fonte: INEP, Redação no Enem 2018: cartilha do participante, página 43 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.