Redação nota 1000 do Enem 2016: Nathalia Couri Vieira Marques
Existem, atualmente, diversos conflitos religiosos no mundo, fato que pode ser exemplificado pelas ações do Estado Islâmico, que utiliza uma visão radical do islamismo sunita. Nesse contexto, percebe-se que tal realidade de intolerância também ocorre no Brasil, um país com dimensões continentais e grande diversidade religiosa. Assim, tornam-se progressivamente mais comuns episódios de violência motivados pela religião, o que é contraditório, visto que o Brasil é laico e a Constituição de 1988 garante a liberdade de crença das diferentes manifestações culturais. Portanto, medidas que alterem essa situação devem ser adotadas.
A globalização é um processo que tende à homogeneização, à cultura de massa. No entanto, ainda existem diversas formas de expressão cultural e artística, assim como de manifestações religiosas. Dessa maneira, surge na população um preconceito latente, que pode evoluir e motivar a prática de atos violentos pelo indivíduo. Essa situação pode ser considerada reflexo da visão etnocêntrica de parte da sociedade, que considera seus costumes e crenças superiores aos hábitos dos demais. A educação brasileira, que, na maioria das vezes, é altamente conservadora, agrava a questão.
Também é válido ressaltar que o aumento na eleição de políticos conservadores e que assumem uma postura radical na defesa de suas ideologias dificulta a diminuição da intolerância religiosa no Brasil. A ausência de representantes das minorias religiosas impede a implantação de políticas afirmativas e que garantam, de fato, a potencialização da tolerância e da igualdade na manifestação das diversas crenças. Como, segundo Marilena Chauí, a democracia é baseada na igualdade, liberdade e participação, percebe-se que a não participação de toda a sociedade na política, aliada à frágil liberdade religiosa, dificultam a existência de um regime democrático pleno no Brasil.
Portanto, é necessária a criação de cotas, ação que deve ser feita pelo poder público, que garantam a presença de representantes das diversas expressões religiosas na política, o que permitiria a aprovação de medidas afirmativas que reduziriam a intolerância no Brasil. Além disso, é válida a implantação de espaços de discussão nas escolas, direcionadas aos pais e alunos, sobre a diversidade de expressões culturais, o que conscientizaria os futuros cidadãos sobre a legitimidade de cada manifestação religiosa e diminuiria a visão etnocêntrica presente nos indivíduos. Por fim, deve haver a criação de campanhas nas redes sociais, realizadas pela sociedade civil, que amenizem o preconceito presente na população, o que conduziria a uma sociedade progressivamente mais justa, igualitária e democrática.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
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Comentário da banca
A participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, uma vez que a estrutura sintática é excelente e há apenas desvio pontual de concordância no 3º parágrafo (“a não participação (...) dificultam a existência”).
Em relação aos princípios da estruturação do texto dissertativo-argumentativo, percebe-se que a participante apresenta tese, desenvolvimento de justificativas que comprovem essa tese e conclusão. Ou seja, a participante apresenta excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo. Além disso, o tema é abordado de forma completa: já no primeiro parágrafo, trata-se tanto da intolerância religiosa quanto da importância da adoção de medidas que alterem o contexto de conflitos religiosos em que vivemos.
Observa-se no texto a presença de repertório sociocultural quando a participante trata do Estado Islâmico e da globalização e quando apresenta uma citação da Marilena Chauí. Há, nesse texto, uso produtivo do repertório sociocultural, pois ele se mostra relacionado à discussão apresentada e ao tema proposto.
Percebe-se, ao longo da redação, a presença de projeto de texto estratégico, que se configura na organização e no desenvolvimento do texto. A participante apresenta informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, de forma consistente e organizada para defender seu ponto de vista: o contexto de intolerância religiosa que vivemos é contraditório ao fato de o Brasil ser laico e a liberdade de crença ser garantida pelo Constituição, o que faz com que seja necessário adotar medidas que alterem essa situação.
Há também, nesta redação, repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. Há articulação entre os parágrafos (“também”, “portanto”) e entre as ideias dentro de um mesmo parágrafo (1º parágrafo: “nesse contexto”, “tal”, “assim”, “visto que”, “portanto”; 2º parágrafo: “no entanto”, “dessa maneira”, “essa”; 4º parágrafo: “além disso”, “por fim”).
Em relação à proposta de intervenção, nota-se que ela é concreta, detalhada e respeita os direitos humanos: a participante propõe a criação de cotas que garantam a representatividade de diversas religiões na política, a implantação de espaços de discussão nas escolas e a criação de campanhas que amenizem o preconceito relacionado a diferentes crenças.
Fonte: INEP, Redação no Enem 2017: cartilha do participante, página 45 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.