Redação nota 1000 do Enem 2016: Isabella Ribeiro de Sena Carvalho
Embora seja direito assegurado a todos os cidadãos pela Constituição Federal, a liberdade religiosa não é garantida de modo isonômico aos brasileiros. Ora velada, ora implícita, a intolerância quanto ao diferente faz parte da realidade do país. Infelizmente, o desconhecimento da população em relação ao processo de formação da nação e a falta de punição sob os que atentam contra a religião do próximo impedem que o respeito à diversidade cultural brasileira seja consolidado.
Segundo os sociólogos da chamada “Geração de 30”, muito importantes para o desenvolvimento da antropologia no país, o Brasil é formado por uma fricção interétnica. Isto é, desde os tempos da colonização, diferentes culturas compartilham o mesmo território. Contudo, tal interação não ocorre de forma harmônica, uma vez que a persistência do pensamento eurocêntrico do século XVI, que considera os costumes de outros povos como inferiores, gera a intolerância religiosa dos dias atuais. Inquestionavelmente, o preconceito quanto às culturas minoritárias ainda é muito marcante no país, o que é responsável por quadros de violência e por conflitos sociais. O caso de apedrejamento de uma menina de onze anos vestida com trajes típicos do candomblé, ocorrido no Rio de Janeiro, é prova da falta de respeito de parte dos brasileiros às diferentes culturas que formam o país.
De modo análogo, a certeza da impunidade faz com que crimes de ódio continuem acontecendo. Consoante aos ideais liberais de John Locke, as leis brasileiras caracterizam-se pelo respeito às liberdades individuais, o que é, sem dúvidas, uma grande conquista dos brasileiros. Todavia, o que é proposto pela legislação não é colocado em prática integralmente, contribuindo, assim, para o crescimento do preconceito no país. O crescente número de denúncias relacionadas à intolerância religiosa, constatadas pela Secretaria dos Direitos Humanos, comprova que uma parcela da população brasileira ainda não tem acesso à plena liberdade de culto e religião.
A fim de garantir, portanto, a equidade na garantia de direitos à população, são necessárias transformações na sociedade brasileira. O Ministério da Educação, primeiramente, deve inserir à matriz curricular estudantil debates e estudos antropológicos acerca do processo de formação do país, de modo a valorizar a participação das mais variadas culturas na composição da identidade brasileira. Ademais, cabe ao Ministério do Desenvolvimento Social a realização de palestras, sarais e exposições que exaltem a importância do respeito à diversidade religiosa do Brasil. Por fim, cabe às Secretarias de Segurança Pública a criação de delegacias especializadas na investigação de crimes que envolvam a intolerância religiosa, de modo a intensificar o combate a tal preconceito. Afinal, somente com a cooperação entre Estado e sociedade será possível lutar contra a intolerância, um mal que ameaça o Brasil.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
Ver como o INEP publicou
Comentário da banca
A participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, uma vez que a estrutura sintática é excelente, havendo um desvio de flexão nominal (“sarais” > “saraus”) e desvios pontuais de regência no 1º parágrafo (“falta de punição sob os que atentam” > “falta de punição para os que atentam”), no 2º parágrafo (“o preconceito quanto às culturas minoritárias” > “o preconceito contra as culturas minoritárias”) e no 4º parágrafo (“deve inserir à matriz curricular” > “deve inserir na matriz curricular”).
Em relação aos princípios da estruturação do texto dissertativo-argumentativo, percebe-se que a participante apresenta tese, desenvolvimento de justificativas que comprovem essa tese e conclusão. Ou seja, a participante apresenta excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo. Além disso, o tema é abordado de forma completa: já no primeiro parágrafo, trata-se tanto da intolerância religiosa como realidade no Brasil quanto das suas causas: o desconhecimento da população em relação ao processo de formação da nação e a impunidade daqueles que desrespeitam a religião do próximo.
Observa-se no texto a presença de repertório sociocultural produtivo e articulado à discussão quando a participante aborda o conceito antropológico de “fricção interétnica”, o pensamento eurocêntrico do século XVI e os ideais liberais de John Locke. Tais elementos são devidamente articulados à discussão apresentada e ao tema proposto.
Percebe-se, ao longo da redação, boa organização e desenvolvimento consistente das informações, dos fatos e das opiniões apresentados pela participante, revelando a presença de projeto de texto estratégico para a defesa do ponto de vista assumido. A tese da participante é que a intolerância religiosa no Brasil resulta da ignorância da população a respeito do processo de formação nacional, que se caracterizou pela variedade étnica e religiosa, e da falta de punição para aqueles que atentam contra a religião do próximo.
Há também, nesta redação, repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. Há articulação entre os parágrafos (“De modo análogo”, “portanto”) e entre as ideias dentro de um mesmo parágrafo (1º parágrafo: “Embora”; 2º parágrafo: “isto é”, “Contudo”, “uma vez que”, “o que”; 3º parágrafo: “o que”, “todavia”, “assim”; 4º parágrafo: “primeiramente”, “ademais”, “por fim”, “afinal”).
Em relação à proposta de intervenção, nota-se que ela é concreta, detalhada e respeita os direitos humanos: a participante propõe que o Ministério da Educação insira, na matriz curricular, estudos sobre o processo de formação do país, com a promoção de debates estudantis; propõe, também, que o Ministério do Desenvolvimento Social promova eventos que exaltem a importância do respeito à diversidade religiosa do Brasil; e, por fim, propõe que as secretarias de segurança criem delegacias especializadas na investigação de crimes que envolvam intolerância religiosa. Desse modo, a participante propõe uma intervenção articulada aos problemas apontados, recobrindo a questão da falta de conhecimento da população e a da impunidade, razões apontadas para ocorrência da intolerância religiosa no Brasil.
Fonte: INEP, Redação no Enem 2017: cartilha do participante, página 43 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.